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Vestígios de Florença

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“Ela era como uma mulher da Renascença,

a quem não amamos pelo que ela é,

mas pelas coisas que ela não nos diz.”

(John Donne)

O mais famoso romance de E.M.Forster, ‘A Room with a View’ começa com Lucy Honeychurch comprando cartões-postais na Piazza della Signoria, em Florença. No minuto seguinte, um homem é morto a facadas diante de seus olhos. Como uma boa dama inglesa, ela desmaia, sendo socorrida por George Emerson. Ele joga os postais, sujos com o sangue  do estranho no rio Arno, enquanto diz:

“- Algo extraordinário aconteceu em Florença. E não tem a ver com o fato de um homem ter morrido.”

Durante os anos que se seguiram, milhares de britânicos viajaram até Florença, na busca inconsciente daquele algo extraordinário anunciado por George Emerson. O autor E.M.Forster sugere que o segredo talvez estivesse justamente nos cartões ensanguentados jogados no rio.

Cem anos depois, o Viajante desembarca pela primeira vez na estação de Santa Maria Novella, talvez à procura da mesma mítica Florença verdadeira, buscada pelos fleumáticos personagens de E.M.Forster. Muito mais tarde, ele não lembraria se era final de verão ou pleno outono, mas tinha consciência que a luz dourada nos mármores brancos  e verdes da fachada de Santa Maria del Fiore, ficara como uma de suas mais gratas memórias da cidade dos Médicis.

Depois de deixar a mala em um albergue na Via de Tornabuoni, o Viajante atravessa o rio Arno e procura a Piazzale Michelangelo. Diziam que dali o grande escultor contemplava a cidade ao alvorecer, antes de retomar o trabalho nas monumentais esculturas da tumba de Lorenzo de Médici. Na verdade, ao seu tempo, não existia a piazzale, como a conhecemos hoje. Ela foi desenhada 300 anos depois, por Giuseppe Poggi, o arquiteto que plantou obras neorrenascentistas por toda Florença. Um de seus feitos maiores foi restaurar o Corridoio Vasariano, um tesouro pouco conhecido, até mesmo por muitos dos florentinos, já que em parte do tempo fica fechado, em restauração. Mas o Viajante está com sorte e encontra o passaggio aberto para visitação.

É um longo corredor coberto, com mais de um quilômetro de extensão, mandado construir por Cosimo de’ Medici em 1565, para celebrar o casamento de seu filho Francesco com Joanna de Áustria. Segundo as lendas florentinas (mais divertidas e menos trágicas do que a História) com medo de atentados, Cosimo usava a passagem secreta para ir do Uffizi até o Palazzo Pitti. E, como grande admirador do Renascimento, mandou decorar as paredes com pinturas de mestres como Filippo Lippi

e Andrea del Sarto. Ao longo do tempo, a família Médici continuou a tradição e atualmente, o corredor exibe mais de 900 obras-primas, incluindo autorretratos de Rubens, Rembrandt, Diego Velazquez e Marc Chagall.

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Como tudo em Florença, o Corridoio Vasariano está carregado de história e estórias. Consta que o projeto de Vasari incluía várias pequenas janelas redondas abertas para o rio Arno. Na época, a Ponte Vecchio era ocupada por açougueiros, que jogavam restos de carne no rio, maculando o cenário e o delicado olfato de quem transitava pelo corredor. Os Médicis resolveram o problema, expulsando os mal cheirosos açougues, que foram substituídos por joalherias que até hoje continuam na ponte famosa.

Muito mais tarde, em 1939, o ditador Benito Mussolini visita o Corridoio Vasariano e se encanta com a visão do rio Arno. Mas acha as janelas de Vassari pequenas demais e ordena que fossem alargadas para a próxima visita de Adolf Hitler. E a lenda continua – diz que o Führer ficou de tal forma impressionado com o panorama que teria ordenado que a Ponte Vecchio fosse poupada dos bombardeios alemães durante a retirada de Florença. Lenda ou não, o fato é que todas as pontes sobre o Arno foram bombardeadas e destruídas. Menos a Ponte Vecchio.

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