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Vestígios de Orvieto

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“É fácil entender porque os mais

belos poemas de amor foram escritos

por poetas que viveram na Itália.”

(Jane Austen)

Quando o poeta Gabriele d’Annunzio visitou a Umbria pela primeira vez, se declarou irremediavelmente apaixonado pelo cenário dos ciprestes banhados pela luz dourada de outono. E a emoção do poeta alcançou o deslumbramento, quando surgiu no horizonte o perfil de uma das mais fascinantes cidades da Itália, que os antigos chamavam de ‘La Bella Orvieto’.

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Consta que Orvieto tem origens no longínquo século VII, como uma cidadela militar etrusca, encarapitada no alto de um grande rochedo.

O que não impediu de ser invadida – e perdida – por tribos de godos, visigodos, bizantinos e longobardos. Seu apogeu aconteceu ao longo dos séculos XII e XIII, quando se erguem três monumentais edificações: as igrejas de Santo Andrea e de São Giovenale e o Palazzo del Capitano del Popolo, uma das grandes joias da arquitetura românica da Umbria.

Em 1157, o Papa Adriano IV visita a cidade e instala sua residência de verão no Palazzo Soliano. A partir de então, Orvieto se tornaria o refúgio de cinco papas e seus séquitos de cardeais, que deixariam como legado um inestimável acervo de arquitetura e arte sacra. O grande exemplo é a catedral gótico-romanesca de Santa Maria Assunta, cuja construção, iniciada em 1290, demorou mais de três séculos para ser concluída.

No interior, a Capela de São Bricio guarda um conjunto impressionante de affreschi do renascentismo italiano. Foram iniciados por Fra Angelico e finalizados, em 1502, por Luca Signorelli. Para os estudiosos, a cena central, com o Juízo Final, teria inspirado Michelangelo Buonarotti em seu Juízo Universal, na Capela Sistina. Mas a influência dos papas em Orvieto vai adiante e chega ao seu mais famoso produto – o vinho branco. Como bons consumidores dos frutados da região, os clérigos trataram de ampliar os vinhedos datados do tempo dos etruscos. Que escavaram profundas caves na rocha para criar um vinho com qualidades únicas – aromático, fragrante e ao mesmo tempo, cítrico e com uma bela cor dourada. Não por acaso, Gabriele d’Annunzio diria, embriagado de entusiasmo:

“- Isto é o sol da Itália dentro de uma garrafa.”

Existem lendas sobre a excelência da bebida nascida nos parreirais que cobrem as colinas que vão até as margens do Rio Paglia. Incluindo relatos fantasiosos, como aquele que conta que o papa Gregório XVI, como grande apreciador, teria solicitado, antes de morrer, que seu corpo fosse lavado com o vinho de Orvieto, antes de ser enterrado.

Mas é fato histórico que os antigos etruscos negociavam vinhos da região nos portos do Mediterrâneo. Sua fama teria chegado até a Grécia, ao ponto de atribuírem a Aristóteles a origem do apelido dado a Orvieto:

“A cidade onde corre vinho.”

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Outra estória – menos fantasiosa e mais provável – diz que, em viagem à Itália em 1897, Sigmund Freud, usou os afrescos da catedral como ponto referencial para ilustrar a fragilidade da memória humana. O pai da psicanálise menciona um fato ocorrido durante sua viagem. Ele pergunta ao companheiro se ele já esteve em Orvieto e se havia visto o afresco ‘As Quatro Últimas Coisas – Morte, Juízo Final, Inferno e Céu’. Todavia, Freud não consegue lembrar o nome de Luca Signorelli (o pintor dos afrescos) e o substitui pelos dos pintores, Botticelli e Boltraffio. Mais tarde, em 1901, ele registraria o episódio em ‘O esquecimento dos nomes próprios’:

“O nome do pintor me escapava e não houve jeito de lembrá-lo.
Forcei a memória, passei em revista os detalhes dos dias em Orvieto e constatei que nenhum deles se atenuava ou se apagava.
Conseguia até mesmo representar as imagens de forma mais
viva do que normalmente consigo.”

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