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Conversas com o demônio

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 “A coisa mais incrível sobre milagres
é que eles acontecem de verdade”. 

G.K. Chesterton

O Padre Brown é um personagem único na literatura moderna. Ao mesmo tempo, devoto do Espírito Santo e admirador da literatura noir nos anos 30 e 40. Mas não se parece – nem se comporta – como um teólogo ortodoxo, nem como um detetive famoso. É mestre na dedução, mas não cofia o bigode enquanto aquece as células cinzentas (como Hercule Poirot) ou cultiva orquídeas (como Nero Wolf). Talvez lembre Jules Maigret, ao passar a sensação da tranquilidade de quem conhece os homens, sua grandeza e suas fraquezas. Gilbert Keith Chesterton criou no Padre Brown um alter ego teológico, que se impõe pela sabedoria e pelas suas excentricidades. Seu discurso é, no mínimo, estranho para um sacerdote católico:

“Se o demônio te mostrar algo assustador de olhar, olhe.
Se te disser algo terrível demais de ouvir, ouça.
E se sugerir uma verdade que é insuportável, suporte!” 

Possui uma crença muito peculiar, toda sua, mais próxima do visceral do que do bom senso. Como sacerdote, se recusa a aceitar fatos que contrariem o que a razão toma como natural. Respeita o sobrenatural e sua fé é daquelas que removem montanhas.

Quando questionado, revela perturbadora intimidade com o Mal:

“- Como sabe? O senhor é, por acaso, um demônio?”, perguntou o bispo.
“- Não, sou um ser humano”, respondeu o Padre Brown gravemente.
“Mas, por consequência, tenho todos os demônios em meu coração”.

E, ao comentar um misterioso assassinato, pondera ao comissário que investiga o caso:

O crime é como qualquer outra obra de arte.
Não fique nem um pouco surpreso – crimes não são as únicas obras
de arte que saem das oficinas infernais”.

***

Quando publicou a primeira novela do Padre Brown em 1910, Chesterton já era um turbilhão literário, um escritor feroz e enérgico, que usava textos sofisticados para disfarçar sua verdadeira profundidade. Seu personagem, com sua batina manchada e o eterno guarda-chuva, foi inicialmente ignorado pela crítica inglesa. No entanto, as próximas  estórias venderam como pão quente, para o espanto dos mesmos críticos. Ainda não se usava o adjetivo gótico para novelas curtas, mas algumas das 52 aventuras do Padre Brown dificilmente escapam da definição.

Em “A Honra de Israel Gow”, o Padre Brown e seu amigo Flambeau estão investigando a morte do lorde de Glen Gyle. Ficam intrigados ao ver que todas as imagens religiosas do castelo foram desfiguradas e o nome

de Deus removido da fachada de pedra. Quando desaba uma furiosa tempestade, os moradores aterrorizados suspeitam de diabolismo.      Mas o padre Brown é mais sábio do que isso e desvenda o mistério usando simples lógica.                                                     Frequentemente, GKC usa os tons góticos para criar mistério. Em “O Problema Insolúvel”, um homem é encontrado pendurado em uma árvore do jardim, vestindo um roupão de banho. Enquanto os policiais vasculham os arredores, o Padre Brown observa calmamente a única janela iluminada no casarão. Lá, uma mulher olha fixamente para baixo, com   as mãos enfiadas nos cabelos vermelhos. E quando um grande trovão ilumina o horizonte, ele começa a entender o que havia acontecido.

O Padre Brown explica que seu método é simples, quase ingênuo –

“Eu me coloco na pele do malfeitor e planejo mentalmente o crime em todas as minúcias. E então, quando me convenço que estou pensando exatamente como o assassino, naturalmente, deduzo quem ele é”.

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