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Meus negócios com as freiras

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A freira com quem eu tinha mais contato sempre dizia, toda efusiva e pagã, ao me ver: “E aí, cara, beleza?” Lá em casa ela ficou conhecida como o Cara. Um dia fui receber uma grana com o Cara, mas me pediram pra esperar, e outra freira veio falar comigo, uma senhora de idade indefinida, com uma expressão também indefinida, que eu nunca tinha visto. De modo circunspecto, eu disse: “Boa tarde, irmã”. Ela, toda faceira: “E aí, cara, beleza?” Eu, mesmo apreciando profundamente a situação, não tive presença de espírito pra responder à altura: “Beleza, que Jesus esteja convosco”.

Policial durão

Na contracapa do medíocre O grande deserto, do James Ellroy, há a seguinte frase do Detroit News: “Um retrato da Los Angeles do pós-guerra em forma de buraco negro. É Hieronimus Bosch encadernado”. Sempre me surpreendo com a capacidade dos americanos de levarem a sério seus escritores de quinta e com a capacidade do resto do mundo de acreditar neles.

Cantinho da poesia

Luiz Coronel, no Correio do Povo: “Porque é verão,/ as mulheres exalam/ o aroma das amendoeiras/ e têm o profano sabor da hortelã”. Hummmm. Acho que nunca vi uma mulher em carne e osso. Ou, talvez, a coisa seja menos grave, nunca cheirei uma amendoeira nem provei hortelã. Ou então não conheço o sentido da palavra profano e não sei nada sobre desodorantes íntimos.

Lord Jim

Assisti a dois minutos do filme de Richard Brooks baseado no romance do Conrad. Só dois minutos, por culpa do Peter O’Toole. Numa cena de batalha, ele se esconde no meio de umas árvores e fica se retorcendo igual ao Bambi com cólicas. Só faltava virar os olhinhos.

Pelas barbas brancas do profeta

Um escritor bastante conhecido, ao ouvir uma crítica, sofreu uma elevação de temperatura no sangue que o levou a apontar um longo dedo indicador e a dizer com voz desafinada: “Respeite minhas barbas brancas”. O mais engraçado é que o crítico tinha mais ou menos a mesma idade dele.

Se o escritor fosse mais vaidoso ainda e invocasse respeito pelas “minhas barbas brancas pintadas de acaju”? Ou se o escritor esse tivesse barba preta, mas ostentasse uma linda careca, será que teria o mesmo impacto gritar: “Respeite a minha calva”? Mas, se além da barba preta, tivesse umas melenas dignas dos anos sessenta, o que poderia alegar? Certamente não teria o mesmo efeito apenas mencionar a idade. Falta a imagem literária, não? Restam então as rugas, a osteoporose, a cada vez mais baixa produção de espermatozoides e a ponte de safena.

Fiquei pensando – eu que ostento uma barba branca há mais tempo que o escritor esse. Se a cor das barbas fosse um argumento válido, vários nazistas teriam livrado a cara e os políticos brasileiros poderiam mandar alguns fios arrancados do queixo para análise do STF. Querem mais? Todos os pedófilos seriam inocentes.

Há muitos escritores talentosos que são pessoas muito chatas, ou canalhas. Também há muitos escritores medíocres que são ótimas pessoas, honestas, simpáticas, divertidas. Como é que fica a questão do respeito nesses casos?

Só sei de mim. Eu prefiro minha parte em dinheiro.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.