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O doce doirado

“Só sei que Iaiá tem umas coisas Que as outras mulher não tem. O que é? Os quindins de Iaiá.” (Ary Barroso) Quando salivamos …

“Só sei que Iaiá tem umas coisas

Que as outras mulher não tem.

O que é?

Os quindins de Iaiá.”

(Ary Barroso)

Quando salivamos à vista das iguarias que chegam à nossa mesa, nem sempre lembramos de sua origem e história. Desde 1500, a culinária brasileira se nutre de receitas vindas de fontes as mais exóticas e distantes. Na bagagem de imigrantes açorianos, toscanos, bávaros, renanos, armênios, russos brancos, ciganos do Kurdistão, judeus da Bessarábia, espanhóis de Castela e Leon, escravos da Costa do Marfim… Uma babel de sabores, aromas e temperos que criaram uma diversidade que raras gastronomias do planeta podem usufruir.

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Um exemplo mais do que perfeito – o Quindim, a delícia que adoça nossas vidas desde a infância. Seria um doce genuinamente brasileiro? Negativo.

Ou um doce conventual português? Não exatamente.

O caminho é consultar estórias bem – ou mal – contadas. Como a que diz que a primeira versão do doce teria surgido no oeste da África, mais exatamente, na Costa do Marfim. E que, recolhida pelos navegadores portugueses nos séculos 15 ou 16, foi levada para Lisboa e incorporada ao receituário conventual. Ao que se sabe, o original levava mel (os africanos não conheciam o açúcar) e não tinha as amêndoas picadas da versão europeia.

No interior de Portugal tornou-se um doce popular, principalmente em Leiria, Beira e Estremadura, onde era chamado de Brisas de Santa Ana  ou Brisas do Liz. Mas, nas doçarias de Lisboa e do Porto, bastava pedir pelo nome mais conhecido, o Doce Doirado.

Ao atravessar o Atlântico, os doces de convento se transformaram, já que no Brasil do século 16, não existiam os ingredientes usados nas receitas europeias. E, como os portugueses haviam trazido mudas de coqueiros de Cabo Verde, a doçaria perdeu as amêndoas picadas, mas ganhou o coco ralado. Estava reinventado o Quindim.

Aqui chegando, o doce não foi rebatizado, mantendo a denominação herdada do idioma iorubá. Traduzido, o significado seria dengo, meigo, encanto, preservado pelas doceiras negras, as mucamas, que reinavam nos fornos e fogões. Então, em um momento, incorporou o sobrenome Iaiá, que era o tratamento da senzala para as meninas e moças da casa grande.

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Nos anos 1940, os Quindins de Iaiá alcançam projeção internacional, quando Aurora Miranda canta o tema de Ary Barroso em “Você já foi à Bahia?”, de Walt Disney. O gastrônomo J.A. Dias Lopes registra outros ricos detalhes da história do Doce de Ouro. As tais mucamas do litoral da Bahia, como devotas filhas das divindades iorubás, levavam suas comidas e doces para os terreiros de candomblé. Dedicando o Quindim a Oxum, deus da beleza, do amor, rios e cachoeiras. O motivo? É feito com ovos, tem sabor doce e cor amarela, elementos que fazem parte do culto aos orixás.

Ainda Dias Lopes: consta que Mário Quintana era grande apreciador de Quindim. Comia dois ou três, acompanhados de café preto, sem açúcar, na lanchonete do velho “Correio do Povo”. O poeta de Sapato Florido e Rua dos Cata-ventos gostava mesmo do doce pequeno, mais tradicional,  desprezando o grande, chamado de Quindão. O que lhe renderia uma carinhosa brincadeira dos colegas de redação, o apelido de Mário Quindim.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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