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O feiticeiro

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“Um homem com o raro poder de transpassar diferentes corações.”

(G.K.Chesterton)

Quando Thomas Stearns Eliot começou a escrever versos, dizia-se que estava nascendo mais um poeta post-elisabetano. Nos anos 20, críticos afirmavam que “o senhor T.S.Eliot tem sido quase universalmente considerado como decadente, obscuro e uma moda passageira”.

Na verdade, T.S.Eliot chegava para transformar a poesia britânica. As mudanças começam a ser notadas com um telegrama da Real Academia de Estocolmo, que comunicava que ele era o ganhador do Nobel de Literatura. Ao morrer, 20 anos depois, em 1965, Eliot havia se transformado em unanimidade, passando a ser considerado como um dos maiores poetas da língua inglesa. Seu biógrafo, Robert Giroux, resumiu seu desaparecimento em poucas palavras:

“O século XX ficou menor.”

Passados cinquenta anos, a afirmação não parece exagerada, a julgar a torrente de elogios, críticas e análises que, ao longo do tempo redescobriram e revelaram a importância de sua obra poética. Ele ainda estava vivo quando começou a receber as primeiras reverencias, como a mais conhecida, de Igor Stravinsky:

“Eliot não foi apenas um grande feiticeiro das palavras, mas um guardião da linguagem humana.”

***

Hoje se sabe que T.S.Eliot nunca perdeu sua fleugma inglesa, tanto diante do ácido ceticismo dos críticos como do entusiasmado aplauso dos amigos. Mantinha uma atitude de humildade quase franciscana sobre a importância de sua poesia e não alimentava falsas ilusões sobre fama e celebridade:

“Não desejo tornar-me um mito, uma criatura

fabulosa que não existe.

Não é verdade que o mundo fica menor quando você fica maior. O mundo não ficou menor e você permaneceu exatamente o mesmo.

Escrever novidades é caminho certo para a obscuridade.”

A mais icônica obra de T.S.Eliot é o poema The Four Quartets (1943), sobre o qual escreveu-se enormes quantidades de teses, ensaios e editoriais. Em um rascunho, o poeta anotou que pretendia uma ode patriótica, mas depois riscou a anotação. No entanto, o trecho final – e o mais famoso – da obra, Little Gidding se firmou como um poderoso documento sobre a Inglaterra na Segunda Guerra, dilacerada por bombardeios e escassez de alimentos. O escritor George Orwell afirmou  que desprezava o lado religioso do poema, mas reconhecia nele um monumento patriótico e devocional, que desafiava rótulos e apelidos.

No entanto, à medida em que a reputação de T.S.Eliot crescia, mais e mais difícil se tornava entender o alcance e o significado de sua poesia. Quando recebeu a notícia que ganhara o Nobel de Literatura, ele ficou surpreso e feliz, tendo exclamado: “- Nunca tentei redimir a humanidade, somente tentei criar um idioma e talvez uma mitologia.” Os críticos sempre hesitam em destacar que peça melhor represente a feitiçaria de Eliot, mas gostam de citar Prelúdios, um poema de 1914:

“Sua alma esticada firmemente através dos céus

Que se desmancha atrás de um bloco de cidade,

E pisoteada por pés insistentes

Às quatro, cinco e seis horas;

E dedos quadrados curtos cheios de tubos,

E jornais, à noite e olhos

Certas certezas,

A consciência de uma rua enegrecida

Impaciente para assumir o mundo (…).

Eu sou movido por fantasias que são onduladas

Em torno dessas imagens que se agarram:

À noção de algo infinitamente suave

Uma coisa infinitamente sofredora.

Limpe a mão em sua boca e ria;

Os mundos giram como mulheres antigas

Recolhendo combustível em terrenos vazios.”

***