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Os capangas da casa grande

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O ministro Luís Roberto Barroso, do STF ou, realisticamente, stf, também conhecido como o Iluminista do Projac e o Raymundo Faoro depois da gripe, segundo Luís Nassif, se saiu com esta numa entrevista: “Um direito penal absolutamente ineficiente, incapaz de atingir qualquer pessoa que ganhe mais do que cinco salários mínimos, fez com que nós construíssemos um país de ricos delinquentes, um país em que as pessoas vivem de fraudes”.

Não, não. O direito penal ineficiente não tem nada a ver com a construção do Bananão. É o contrário. A casa grande criou esse direito penal pra que o Bananão continuasse sendo o campo de despojos inaugurado com a invasão portuguesa – senão, como seus filhotes e seus capangas poderiam cometer todos os crimes na rapina que torna a casa grande, pois é, grande? Deste ponto de vista, o direito penal do Bananão é mais do que eficiente.

O exemplo mais óbvio é que há cadeia especial pra quem tem diploma universitário. Como, depois do Lula, muito pobre andou entrando na universidade, a casa grande estrilou. Já era um abuso compartilhar compras no xópim e assentos no avião. Imagina compartilhar a cela especial? Essa gentalha não se enxerga mesmo. É preciso dar um basta nisso.

Falei aqui, não faz muito, do rapaz que pegou seis meses de prisão preventiva por furtar uns salames e da manicure que pegou sete anos e meio de cadeia por causa de umas fraldas, enquanto o Alberto Youssef desfruta, em casa, da sua delação premiadíssima. O direito penal do Bananão está pra lá de correto: o perigo de furtos de salames e fraldas é comparável, quase, a atos de terrorismo. Youssef apenas recebeu uma graninha por ajudar alguns sinhozinhos a manter o padrão de vida.

Os juízes que, diante desses delitos, bateram o martelo da sentença são o quê? Há diferença entre eles e os capangas dos coronéis de antigamente que eram a lei e a ordem no município? Há, sim: uma surra de chibata e um tiro na cara são menos fotogênicos que uma sentença bem aplicada.

Abrir parênteses. Por falar em terrorismo, cabe a pergunta: uma bomba que mata algumas dezenas de pessoas é mais ou menos letal que uma política econômica que joga dezenas de milhões de pessoas na miséria? Lembre-se, quanto mais miserável uma sociedade, mais violência, mais crimes, sem falar em mais doenças e indignidades diversas. Se, pra resolver a dúvida, ficarmos no número de mortos, um Bin Laden é pinto perto dos economistas neolibelês. Fechar parênteses.

Outro bom exemplo foi dado pelo juiz Bento Luiz de Azambuja Moreira. Ele suspendeu uma audiência porque o autor de uma reclamatória trabalhista, o lavrador Joanir Pereira, apareceu de chinelos de dedo no tribunal. O doutor declarou que “o calçado é incompatível com a dignidade do Poder Judiciário”. Acho que o tal Bento Luiz está correto: por que ele iria examinar a queixa de um mísero lavrador contra um fazendeiro se podia resolver o caso através do chinelo? Joanir não tinha que se queixar, ele foi ilustrado pelo juiz: se você quer ser levado a sério pelo Poder Judiciário do Bananão, seja rico. Ser rico é a única forma de ser compatível com a dignidade do Poder Judiciário do Bananão.

Abrir parênteses. Quem deveria tirar uma boa lição disso é o Lula. Sim, o Lula. O Lula é um otário. Pra acabar com todos esses processos contra ele basta uma coisa: se filiar ao PSDB, digo, psdb. Capaz até de ganhar um cochicho sorridente do Moro no ouvido em evento em que a casa grande premia seus mandaletes. Fechar parênteses.

Voltando ao Iluminista do Projac, que papo é esse de que nós construímos um país de ricos delinquentes? Dobre a língua, cara pálida. Os ricos são responsáveis pela própria biografia. Ou sou eu, um escriba velho – que tem onde cair morto mas não tem como pagar o crematório –, quem tem poder de decidir o que é lei, como ela será cumprida ou contornada, quais as políticas econômicas e tal? Ou o lavrador Joanir, com seus flamantes chinelos de dedo, tem esse poder?

Dobrar a língua é pouco. É preciso passar um sabão nela. O lavrador Joanir, não sei, mas eu não quero ser misturado com essa gentalha.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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