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Vestígios de ontem

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Era um sobrado pintado de branco, com um portão de ferro e duas janelas que se abriam para a rua. E, se lembro bem, enfeitadas com pequenos e delicados vitros verdes. O lugar onde morávamos era um sossego só, dava até para jogar bola no meio da rua, sem medo de ser atropelado pelos poucos carros que por ali passavam. Um lugar distante no passado de uma cidade que se deixou transformar, perdendo para sempre o encanto das cadeiras na calçada e o azul profundo dos jacarandás de novembro.

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E, claro, haviam os tempos de perfumes e fragrâncias. Pela grande janela que dava para o quintal, nos chegavam perfumes de goiabas e pêssegos maduros. Que pouco depois, cediam a vez para o cheiro dos panelões de doces de frutas  de Dona Esther, a vizinha do lado, que jurava ser guardiã de antigas receitas judaicas. O tempo passava e vinham as noites de primavera – e com elas, o misterioso perfume do quintal do vizinho do outro lado. Era adocicado, quase embriagador. Demorou muito tempo para descobrir que flor seria aquela. Até que um jardineiro japonês matou a charada – era o perfume de uma esquiva flor noturna, originária da Índia, chamada de Cestrum Nocturnum.

Nunca mais esqueci este nome. Nem reencontrei o sestro daquelas noites de primavera.

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Minha avó Ana Augusta era o que se costumava chamar de uma senhora doceira. Ela guardava ciosamente suas receitas em uma velha lata de biscoitos, maços de folhas amareladas, todas escritas à mão. Herança de doceiras dos dias em que não se poupava ingredientes – dúzias de ovos, litros e litros de leite gordo e muitos quilogramas de açúcar. A matriarca dedicava carinho especial aos delicados e dourados doces portugueses, mas também caprichava nos doces campeiros, feitos com frutas bem maduras, colhidas     no pomar de manhã cedo:

“A fruta tem que estar molhada de orvalho”, falava.

E corríamos para o pomar, sem entender o porquê de tantas exigências… Mas se Dona Ana Augusta falava que assim tinha que ser, assim seria.

Seus grandes panelões de ferro ficavam por horas no fogo, que nunca se apagava. Depois, o doce era posto para esfriar até o dia seguinte, quando se envasava os doces nos vidros de compotas. Que eram lacrados com cera quente e colocados no armário na despensa, arrumados por tipo de fruta – os de abóbora no alto, abaixo os de goiaba, de laranja e de figo. Então, Dona Ana Augusta trancava a porta da despensa com duas voltas de chave, que guardava no bolso do avental. E lá ficavam os vidros de compotas, esquecidos por meses no escuro da despesa, até ficarem cristalizados e prontos para adoçar os dias de inverno que estavam quase chegando.

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Os mais prezados bens domésticos do sobrado de minha infância ficavam na sala de jantar. Não tínhamos automóvel – no bairro, poucos desfrutavam deste luxo: o Pontiac da família Bock e o Buick preto do oficial de marinha, sem falar na caminhonete verde do árabe do armarinho. Mas gostávamos do pouco que tínhamos: uma grande bandeja monogramada com as pesadas pratarias da bisavó Alice; a cristaleira com as taças de cristal lapidado; o Telefunken de 12 válvulas de meu pai e a geladeira branca da Steigleder – garantia de refrescos gelados no verão de Porto Alegre. Não era muito, mas dava uma sensação de conforto estar cercado por pequenos tesouros de família.

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O velho peão apagou a brasa do cigarro de palha com sua alpargata gasta e resmungou:

“- Todos foram para a cidade; só sobrou a casa velha,

abandonada e povoada por morcegos e escorpiões.”

Entrei pelo vão onde um dia existia uma porta de entrada, caminhei entre pedaços de paredes, cacos de tijolos e telhas quebradas. A procura do quê? Restos de verões antigos, para preencher meus vazios de memória? Mas não havia nada para ver. Aqui, um velho armário sem porta. Ali, livros velhos sem capa e uma única xícara branca, esquecida no meio do que restou de uma mesa. Alguém tomou café naquela xícara… quem teria sido este alguém?

Então, chega a voz do peão avisando para ter cuidado com escorpiões e aranhas. Saio para a claridade, deixando os escombros para trás. O homem está falando sobre velhas cocheiras de cavalos que existiam em algum lugar ali perto. A fumaça do cigarro palheiro encobre seu rosto enrugado e sua voz soa como vinda de muito longe.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.