Garimpando memórias

"O passado nunca está onde você pensa que o deixou." (Katherine Anne Porter) Um dos mais emblemáticos personagens da moderna literatura inglesa atende pelo nome …


"O passado nunca está onde você pensa que o deixou."  (Katherine Anne Porter)
Um dos mais emblemáticos personagens da moderna literatura inglesa atende pelo nome de Padre Brown, criação do inglês Gilbert Keith Chesterton. É uma espécie de alterego do escritor, quando ele  mergulha em intrincadas reminiscências do passado. Como um dos personagens de "A Sabedoria do Padre Brown", que, em visita a uma galeria de arte, assusta os amigos ao repetir em voz alta nomes de velhos colegas mortos. A sobrinha do Padre Brown fica chocada, o tio tenta acalmá-la, ao que ela responde:
"- O senhor não compreende, tio. Ele não estava olhando os quadros. Seus olhos estavam voltados para dentro, como se ele olhasse para o passado.                                      E sorria de uma maneira que me gelou o sangue nas veias."
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Outro escritor obcecado pelos mistérios da memória é o alemão Walter Benjamin, que dizia "quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado, deve agir como um escavador". Ele afirma que a memória é o meio ambiente onde aconteceu nossa vivência, como o solo é o meio que esconde antigas cidades soterradas. E os fatos do passado seriam as camadas a serem exploradas - e quanto mais cuidadosa será a garimpagem, mais preciosidades serão reveladas, "como torsos de mármore destinados à galeria do colecionador".
A poesia de Carlos Drummond de Andrade também percorre caminhos semelhantes, quando descreve as aflições decorrentes dos lapsos de sua memória em Itabira.
Em Coleção de Cacos, o poeta fala de lembranças esfaceladas e do sofrimento de reunir fragmentos, restos de pessoas e de momentos da infância:
"Agora coleciono cacos de louça
quebrada há muito tempo.
Cacos novos não servem.
Brancos também não.
Têm de ser coloridos e vetustos,
desenterrados - faço questão - da horta."
O drama da memória e da busca de identidade, surge frequentemente em Gilbert Keith Chesterton, quase uma constante em sua obra. O mesmo personagem que se surpreende ao ouvir sua voz repetir nomes do passado, em outra ocasião, avista um rosto vagamente familiar em uma estação de trens. Ele tenta se aproximar, andando entre as pessoas, mas o vulto familiar não está lá. O personagem então lembra ter vislumbrado o mesmo rosto, dias antes, na porta da igreja da pequena cidade. A partir daí, as fugazes imagens despertam indefinidas lembranças de outros tempos. Ele não mais se concentra em procurar um nome para o rosto, agora quer descobrir de que lugar do passado veio aquele vulto.
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Já em "A Inocência do Padre Brown", Chesterton procura explicar os encontros fortuitos e frustrados que acontecem em nossa vida. À certa altura, ele recomenda que devemos olhar o mundo com os olhos inocentes da criança que fomos, mas, ao mesmo tempo, que sejamos capazes de reconhecer a existência do mal - no passado e  no presente. O escritor lembra o gestual que as crianças fazem ao rejeitar o carinho de um estranho, ao perceber que é falso ou sem significado. E conclui que crianças são capazes de identificar  o mal, justamente por serem inocentes.
Eis um dos paradoxos típicos do Padre Brown - ele tem consciência da existência do mal porque procura enxergar o mundo com olhos inocentes. E acredita que o mal está presente em cada um de nós, porque guardamos na memória ancestral a culpa pela expulsão do Jardim do Éden.
Em muitas ocasiões, o Padre Brown soluciona o crime e revela o criminoso, mas não se empenha em entregá-lo à polícia. Ele revela o agente do mal, mas não se ocupa com a justiça dos homens. Não há, nos contos do padre-detetive, a premência em provar culpas, julgar e condenar. Para GKC, a condenação moral do criminoso é peso suficiente: "o próprio criminoso sabe disso, tanto assim que foge, carregando a vergonha e a consciência do mal feito".
E o Padre Brown cita a si mesmo, verbalizando o paradoxo:
"Coisas mortas descem corrente abaixo;
apenas coisas vivas nadam contra a corrente."
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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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