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Minha encucação com o Estado mínimo

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Vi muitos empresários dizerem que o povão não deve ver no Estado um pai, mas sim botar o pé na rua e se virar em nome da livre concorrência. Mas vi esses mesmos empresários mamando nas tetas do Estado a vida toda. Oquei, oquei. É preciso ver uma mãe no Estado, não um pai. Que cabeça a minha.

 Velhos e novos

Ando sempre à cata de autores novos. Lembro da alegria de conhecer, anos atrás, o Marçal Aquino, o Sérgio Fantini e a Índigo, por exemplo. Mas a verdade é que essa alegria não é muito frequente. Com o tempo, descobri outro tipo de alegria: descobrir autores velhos. Ou redescobrir.

Dia desses peguei por acaso o Nove estórias, do J. D. Salinger. Lido há muito tempo, não me restava nada, fora uma sensação agradável, mas bastante vaga. Então a surpresa: como esse desgraçado escrevia bem, minha nossa. Como eu não lembrava? É provável que eu o tenha lido em circunstâncias não muito favoráveis.

Não vou encher ninguém com uma resenha detalhada, mas há três coisas que devo falar. A mais evidente é o humor sem claque do Salinger. Ele beira o zen, ou é puro zen. Outra evidente também são os diálogos. Beiram a perfeição. Absolutamente naturais, na linguagem e nas idas e vindas: interrupções, desvios, pausas. A terceira coisa é mais secreta. Os temas são os de sempre, as histórias são simples, mas tudo é extremamente complexo e, de lambujem, não há um lugar-comum. Salinger não se apoia em nada manjado nem para tomar impulso. Nova lição zen: ele nunca fala das coisas, mas da sombra delas, ou do vazio que elas deixam. Ou não? Não. Ele fala de outras coisas e, pela disposição delas, percebemos a sombra e o vazio.

Eu, se fosse ele, também ia me trancar numa fazenda. É tudo muito chato, muito burro.

Grandes aventuras

Eu me interesso por coisas do tipo vida submarina, planetas distantes, a expansão do universo, buracos negros, a possibilidade de existência de gelatinas inteligentes ou mesmo burras em outras galáxias. Já imaginou alienígenas com tremendo domínio tecnológico que de nossa civilização só querem saber das duplas caipiras e da duplicação da Ana Maria Braga pra povoar um mundo? Mas não adianta. Pra mim o grande barato continua sendo a cabeça das pessoas. A exploração da mente é a mais perigosa e fascinante das aventuras. Com a vantagem de não precisarmos sair nem do prédio onde moramos.

Estilo

Não sei se vocês notaram, mas quando dizem sobre o que vão falar ou expõem os fatos, os ensaístas (de qualquer área) em geral escrevem com clareza. Na hora que começam a argumentar, quer dizer, na hora em que têm de dizer o que pensam, duesnosacuda: as vírgulas se multiplicam, as frases se ramificam, as palavras vão se tornando pomposas e opacas. Enfim, a gente não entende mais nada. Compreendo perfeitamente o mecanismo que leva a essa enrolação, mas fico curioso: quando dois ensaístas se encontram, eles fingem que não aconteceu nada, como aqueles famosos amigos que “beberam mal”?

Foto pra documento

É clássico, as fotos pra documento são um desastre. Esses dias fiz uma apavorante. No começo, achei que tinha ficado tipo 11 de setembro e que me deportariam em minutos de qualquer lugar. Depois, olhando melhor, vi o que me incomodava: a foto era igualzinha a essas que a gente vê ilustrando comunicado de falecimento. A morte não me mete muito medo, mas esses trechos de biografia, feitos numa forma infinita, sim.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.