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O Bananão no liquidificador

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O Bananão foi colocado no liquidificador em 2013. Mas empresários, rentistas, juízes e promotores, políticos em geral, barões da imprensa e sua alcateia amestrada pensavam que poderiam ligar e desligar o liquidificador conforme desejassem. Faz batida de Dilma. Desliga. Faz batida de Lula. Desliga. Quem vai ser o próximo? Desliga logo que o Jucá tá todo esfolado, cara!

Esqueceram que muita gente metendo o dedo no botão poderia complicar. Sabe como é, há pessoas mais espertas que outras. Há pessoas que querem mais poder. Há pessoas impulsivas. O Janot pesou o dedo e deve ter passado uma madrugada se sentindo o máximo. Vamos ver até onde ele consegue ir sem desmanchar aquele penteado que não teve coragem de usar na adolescência.

Agora, no susto, tem gente metendo a mão dentro do liquidificador na tentativa de tirar pedaços queridos do Bananão. Tomara que perca o braço até o cotovelo, no mínimo. Mas duvido. Fora uma que outra unha, fora um que outro dedo, logo esse pessoal se ajeita. Esse pessoal tem experiência. Há cinco séculos esse pessoal faz o que quer do Bananão. A inexperiência é nossa, ralé, que reluta em virar a mesa.

O Temer com o Joesley, tarde da noite, em encontros clandestinos no Jaburu inspiraria o Mario Puzo? Tenho minhas dúvidas. Dom Corleone tem a presença dos grandes criminosos, impõe respeito sem precisar dizer nada, muito menos levantar a voz. Temer, apesar dos ternos escuros e do apego à gramática, é um gatuno de quinta categoria. Não tem o respeito nem da babá do Michelzinho, aposto. Não dá pra fazer uma ópera sombria com ele – vide o filme do Coppola, não o livro do Puzo –, apenas uma ópera bufa ou uma novela da Globo – vide O bem-amado do Dias Gomes.

Adorei o Temer dizer que o Joesley se aproveitou dele por ser idoso. Sim, como se um jovem atlético lhe tivesse batido a carteira na rua. Só falta alegar que, como é gagá, não sabia que roubava o Bananão há décadas. Olha, seu filho da mãe: vai pedir pena pra Marcela, que vai herdar o que você roubou.

Mas e o Moro, hein? Não ouvi nem um pio dele até agora. Difícil apagar na rede as fotos em que aparece aos cochichos e risinhos com o Aécio Neves, o Gangster Desbocado. Difícil apagar as fotos do sorriso capacho ao apertar a mão do Temer, o Chefinho do Jaburu, em nova confraternização da casa grande. Difícil apagar a declaração de que o Eduardo Cunha queria chantagear o Temer. Alias, entre parênteses, gostaria de perguntar: o que um juiz faz ao saber que um bandido chantageia outro? Difícil não admitir que os bandidos continuavam agindo embaixo do seu nariz, o que leva a outra pergunta: pra que mesmo serve a prisão preventiva?

Moro, os barões da mídia e as legiões de coxinhas sonharam por mais de dois anos com uma cena como a do encontro noturno no Jaburu. Só que com Lula no papel do Temer. Que pena, né? Depois de mais de dois anos de investigação, inclusive de forma ilegal muitas vezes e se estendendo à família toda, nada. Necas de petibiribas: nem uma mísera conta em paraíso fiscal, nem um videozinho recebendo mala de dinheiro, nem uma gravaçãozinha com papo de quadrilheiros. Que merda. Deve dar uma raiva ter de ficar com convicções e diz-que-diz quando umas provas tão claras, tão contundentes, recaem em dois mandaletes da elite bananensis.

Por falar em provas contundentes, é patético e ofensivo o comportamento da Folha de São Paulo e do Estadão. Quando se trata de Lula ou Dilma, as ilações mais esfarrapadas servem pra se pedir a guilhotina. Quando se tem a combinação dos crimes gravada, quando se tem as imagens da entrega da grana, quando se tem a conta onde foi depositada, o que se passa? Não é conclusivo. Coitadinho do idoso.

Isso não se chama jornalismo, isso se chama cumplicidade.

Mas e o Gilmar Mendes, hein? Ele, que gosta tanto de falar, por que não vai pra tevê explicar o telefonema em que recebe ordens do Gangster Desbocado? Nem o Bananão merece um juiz desse nível. FHC vai ter de explicar ao diabo a nomeação desse sujeito, entre otras cositas.

Por falar em Aécio, o garotão, o sonho dourado da Globo pra dirigir o Bananão não consegue fazer nem uma frase com começo, meio e fim. Não consegue dizer três palavras seguidas sem um palavrão. Além de delinquente, ignorante e grosseiro. Sem a irmã não teria sido eleito nem vereador. Como se vê, a Globo está bem arrumada em matéria de sonhos dourados.

Hoje li que a mega-sena acumulou. Talvez pague 34 milhões quarta-feira. Milhares de trouxas vão apostar. Talvez eu aposte também – esperança delirante é o que resta pra ralé. 34 milhões resolveriam os meus problemas, os da minha família e os de uns amigos necessitados. E dizer que uma grana dessas o Chefinho do Jaburu e o Gangster Desbocado levantavam com um telefonema.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.