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O banheiro da casa grande

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Como muita gente, gastei boa parte da vida tentando desenhar o mapa do Bananão, mas sempre tinha a sensação de que havia algo errado, como se o Bananão estivesse num ângulo impossível ou os estados estivessem fora de encaixe. Como diz um personagem do Cortázar, acho que em Los premios, se no passado os argentinos eram tão bravos, tão honestos, tão idealistas, que merda aconteceu que o país virou nisso que está aí? De algum modo obscuro, desde menino sempre me fiz essa pergunta em relação ao Bananão.

Por exemplo, na escola, ouvi dezenas de vezes que o Bananão era habitado por gente afável, coisa que eu via desmentida no recreio, pra não ir mais longe. Mas os professores insistiam: fora a guerra do Paraguai, vivemos sempre na santa paz e harmonia, sem falar que massacrar o Paraguai foi um ato de justiça: a queda de um ditador implacável. A mortandade de índios e a escravidão mais longa e violenta passavam em branco. Canudos, Contestado, Ponche Verde? Precisei ficar adulto pra ter as provas da selvageria dos donos do poder e eliminar o cor-de-rosa com que se tingia o mapa do Bananão.

Lembro que a primeira pista que tive pra compreender nossa índole malemolente foi quando li que Rui Barbosa queimou documentos que revelavam as atrocidades da escravidão. O Águia de Haia – ou o Garnisé de Salvador? – queria limpar essa nódoa de nossa História. Como esse homem, considerado por muitos o brasileiro mais inteligente, não percebeu que mesmo sem esses documentos as consequências da escravidão estavam ali na esquina? Aliás, estão até hoje – são o traço mais marcante do florão da América.

A melhor forma de limpar essa nódoa era ter dado condições de vida decente aos ex-escravos e seus descendentes. O Garnisé nem pensou nisso. Deve ter acreditado na generosidade da princesa Isabel – a libertação foi jogar um mar de gente destroçada emocionalmente na miséria mais extrema, ainda culpando-a pela pobreza em que passaram a viver. Como a miséria extrema produz desespero extremo, que leva fácil ao alcoolismo e à violência, entre outras coisas, a culpa foi ampliada: bebuns criminosos.

Como se sabe, investir em emprego, saúde e educação custa caro. É mais fácil baixar a idade penal e gradear portas e janelas. Assim ainda se isenta a casa grande de qualquer responsabilidade pelo que está aí.

Por falar nisso, me lembrei de uma crônica do Luis Fernando Verissimo, do seu primeiro livro, O popular. Ela se chama “O povo”. Cito o último parágrafo, mas cuidado, é ácido na veia: “O povo não tem a mínima cultura. Muitos nem sabem ler ou escrever. O povo não viaja, não se interessa por boa música ou literatura, não vai a museus. O povo não gosta de trabalho criativo, prefere empregos ignóbeis e aviltantes. Isto quando trabalha, pois há os que preferem o ócio contemplativo, embaixo de pontes. Se não fosse o povo nossa economia funcionaria como uma máquina. Todo mundo seria mais feliz sem o povo. O povo é deprimente. O povo deveria ser eliminado”.

Por falar em Verissimo, me lembro de uma declaração do outro. Quando fazia a pesquisa pra escrever O tempo e o vento, Érico descobriu que nossos heróis, hoje nomeando ruas em quase todas as cidades gaúchas, eram bandidos. Simples assim.

Como eu era muito jovem, fiquei encucado: por que intelectuais, educadores e autoridades em geral, que conheciam ou deviam conhecer os fatos, enchiam a bola desses bandidos, na linha faxineira do Garnisé de Salvador? Um belo dia me dei conta: esses bandidos não eram pobres. Eram grandes proprietários. Os que não eram autoridades, mandavam nas autoridades. Os pais da pátria têm a vantagem de ter a bufunfa e o veredito do que é honra e do que é infâmia. Noblesse oblige.

A lógica disso é a mesma que faz um sujeito que ganha cinco mil reais por mês pagar vinte e sete por cento de imposto, enquanto milionários pagam, quando pagam, catorze por cento. Ou a lógica de nossa justiça, assim mesmo, em minúscula: ladrões de colarinho branco cumprem penas mixurucas em seus palacetes, pés-de-chinelo mofam por anos na cadeia porque as autoridades esqueceram que se tratava de prisão preventiva.

Como se vê, o mapa do Bananão aos poucos ficava mais colorido e nítido pra mim. Como também se vê, este texto não segue uma ordem cronológica, nem pretende expor a complexidade enfrentada pelo meu lápis no desenho do perfil do Bananão. O leitor, se não for do tipo dois neurônios tão encontrado nas caixas de comentários, já percebeu que destaco alguns momentos e que esses momentos talvez nem sejam os mais exemplares. Fazer o quê? Isto aqui é apenas um devaneio que terá uma longa vida de três ou quatro dias nas insaciáveis malhas da rede.

Duas peças seguiam cinzentas, encaixadas a marteladas no mapa oficial do Bananão: o jeitinho brasileiro e o complexo de vira-lata. Sendo o homem demasiado humano em toda parte, por que apenas o homo bananensis teria o privilégio da malandragem? Por que seria tão importante, na economia do cosmos, a denúncia de que o camarada fura uma fila e outras coisinhas deste calibre? Por que, em contrapartida, não é jeitinho o patrão desse fura-fila esbravejar contra o Estado mas jamais largar as tetas do dito-cujo? É hilariante e triste ver pessoas indignadas porque alguém engana no troco e achar normal que os rentistas fiquem com a maior parte do que elas pagam em imposto.

Quando os bancos gringos quebraram a economia em 2008, escancarou geral: os gringos sim entendiam de maracutaia. Os gringos não só eram muito mais corruptos que os nossos corruptos, como a corrupção deles é mais perigosa: afeta o planeta todo. Mais: boa parte dessa corrupção não só é permitida como é incentivada e praticada pelos governos, ou como se explica, por exemplo, que se invada um país pra facilitar os negócios das multinacionais? Moral da história: o jeitinho deles é muito mais jeitoso que o do Bananão e o Roberto da Matta é, sejamos bondosos, um tolo.

Se esse amadorismo é verdadeiro, nosso complexo de vira-latas tem razão de ser, não é? Mas o que me grilou sempre foi o que pressenti por trás desse complexo, a mentalidade dos colonizadores, a velha história: virem encher os bolsos de ouro e voltarem pra metrópole. Muitos colonizadores não conseguiram voltar e seus descendentes estão por aqui com os mesmos sentimentos. O Bananão não é um país, não é uma nação: é um acampamento. Num acampamento, você empurra com a barriga, você improvisa, dane-se se a paisagem se estraga. Azar da ralé que não tem outra coisa que o acampamento.

Meu mapa do Bananão melhorou uma barbaridade quando percebi o que a chamada elite bananensis sente sobre a ralé. Ela não pode alegar uma descendência divina, como antigos reis, sem falar que essa alegação hoje serviria apenas pra chacotas grosseiras ou de pretexto pra internar alguém num manicômio. Ela não pode alegar nem uma descendência nobre. A história do Bananão está forrada de barões e duques e viscondes, mas são tudo nobres fabricados no fundo do quintal, uma nobreza com o mesmo complexo de vira-latas que a classe média mais babaca – ou mérdia, como dizia João Antônio. Vem daí – suspeito, numa psicologia de botequim – a tão ostensiva exibição de luxo e desprezo beirando o ódio aos miseráveis.

Como os muito ricos viajam em seus próprios aviões, imagino que se lixaram quando os pobres puderam voar, anos atrás. Mas a classe mérdia alta chiou. Os aeroportos pareciam a rodoviária de Cambuquira ou uma feira de arrabalde, diziam. Chiaram também com as cotas pra negros nas universidades – se você quer sair da senzala, melhor jogar futebol ou ser cantor. Diplomas são latifúndio dos brancos de posses.

Isso é óbvio, todo mundo sabe, todo mundo viu ou leu. Mas a mim parecia meio rarefeito, informação de segunda mão, talvez porque não convivo com gente metida a besta. O grande exemplo ainda continuava sendo a garrafa de Romanée-Conti do Lula. Ou melhor, o chilique do Elio Gaspari, que achou um desplante grotesco o Lula ter tomado o vinho. Quem reagiu à altura foi, novamente, o Luis Fernando Verissimo: “Hoje tomam Romanée-Conti, amanhã vão querer o quê? No mínimo se achar iguais a nós. Pedir os mesmos direitos. Viver como a gente, que tem berço, que tem classe, que tem bom gosto e portanto merece o melhor. E nós sabemos como isso acaba. Logo, logo vão estar querendo subir pelo elevador social”.

Mas o Gaspari é apenas um agregado da casa grande que aspira usar o elevador social. Mesmo traduzindo os sentimentos dos patrões, ainda pode se dar um desconto. Os agregados exageram ao puxar o saco, não?

Aí, dia desses, um senhor veio fazer um trabalho aqui em casa. Fiquei de papo com ele e ouvi uma historinha que, pelo nível do absurdo, é muito reveladora da alma do Bananão. Vamos a ela, sem nomes, sem endereço, sem datas. Não quero nem pensar em atrapalhar a vida desse senhor.

Ele fez um trabalho pra um homem rico. Sim, apenas rico, não podre de rico. Lá pelas tantas, um dos ajudantes do senhor precisou fazer xixi. A empregada do rico, mal o operário desocupou o banheiro, foi limpar o vaso com alvejante. Não sei se trocou as toalhas, mas é provável. Depois, quando o dono da casa chegou, ela contou tudo. O dono da casa não teve dúvida: mandou arrancar o vaso e botar outro, novo.

O senhor me disse: “Achei meio brutal. Ele podia ter mandado lavar com um produto mais forte”.

Depois eu ri feito um danado com essa observação. Mas na hora minha surpresa foi tanta que fiquei mudo. Esse senhor acabava de passar a última demão de verniz no mapa do Bananão.

Vamos, Moro, deixe de frescura. Esqueça triplex, canoa de lata e pedalinhos. Condene Lula pelo seu maior crime: ele fez xixi no banheiro do Palácio da Alvorada, o puxadinho da casa grande.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.