O regresso do estrangeiro

  Depois de dez anos na África do Sul, Fernando Pessoa regressa a Lisboa  e aluga um quarto em uma pensão no número 18 …


 
Depois de dez anos na África do Sul, Fernando Pessoa regressa a Lisboa  e aluga um quarto em uma pensão no número 18 do Largo do Carmo. Não foi um dos períodos mais venturosos de sua vida. A tipografia que comprara com a herança da avó Dionísia acabou falida e ele precisa dedicar-se a traduzir cartas comerciais. De sua janela, observa as ruínas do Convento do Carmo e escreve entristecidos versos, assinados como Álvaro de Campos:
"Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver?"
Os jacarandás floridos do Largo do Carmo devem ter motivado a nostalgia do poeta, recordando as bucólicas alamedas de jacarandás-mimosos de Durban, onde viveu com a mãe, Maria Madalena e seu padrasto, João Miguel Rosa. Lá, aprendera inglês em uma escola irlandesa e graças a isso, pode ler com avidez Shakespeare, Tennyson, Lord Byron e Edgar Allan Poe. Estas reminiscências de Durban o acompanharão ao longo da vida, até a hora da morte.
Em 29 de novembro  de 1935, Fernando Pessoa é internado no Hospital de São Luís dos Franceses, no Bairro Alto, em Lisboa, com diagnóstico de cirrose hepática. Expira cinco dias depois, aos 47 anos de idade. Na véspera, reclama da enfermeira não poder avistar de sua janela os jacarandás floridos do Largo do Carmo. E escreve em seu caderno uma última e enigmática frase:
"I know not what tomorrow will bring."

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Quando morre Fernando Pessoa, Portugal ainda não tinha consciência de que estava perdendo um de seus maiores poetas. Sua poesia era quase desconhecida da maioria dos portugueses. Com exceção de Mensagem, os únicos livros publicados durante sua vida foram coletâneas de poemas ingleses: Antinous, 35 Sonnets e English Poems, editados em 1918 e 1921. Quando escreveu que não sabia o que lhe traria o amanhã, ele foi absolutamente sincero. Grande parte de sua obra, mais de 25 mil páginas manuscritas, foi encontrada mais tarde em uma velha arca, na casa de Campo de Ourique, onde morou nos últimos 15 anos de vida.
No entanto, depois de morto e enterrado, não faltaram os elogios e as homenagens ao poeta e seus heterônimos. O mexicano Octavio Paz escreve que "Fernando Pessoa não tem biografia. A sua obra é a sua biografia", acrescentando:
"Nada na vida do poeta é surpreendente - nada,
exceto os seus poemas."
O norte-americano Harold Bloom declara que ele foi o Walt Whitman hispano-português e o coloca entre três maiores cânones da poesia ocidental, ao lado de Jorge Luis Borges e Pablo Neruda. Sem saber da frase de Octavio Paz, o poeta português desde muito já havia definido o sentido de sua trajetória, ao usar a frase clássica de Pompeu, no poema "Navegar é preciso".
Ali, ele se define: "Viver não é necessário; o que é necessário é criar". Era o poeta navegador, distante do poeta estrangeiro do Largo do Carmo:
"Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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