Eles estão chegando!

"Viajar é virtude. Fazer turismo é pecado capital." (Gustave Flaubert) Há certo tempo atrás, publiquei aqui uma crônica onde fustigava uma das pragas modernas, …


"Viajar é virtude.
Fazer turismo é pecado capital."
(Gustave Flaubert)
Há certo tempo atrás, publiquei aqui uma crônica onde fustigava uma das pragas modernas, o Turismo. Não falava do clássico traveller, aquele que viaja em busca de conhecimento e segue o ensinamento do poeta, de "viver numerosamente". Tratamos do turismo em massa, a máquina global que carrega multidões de um lugar para outro, através de países e continentes cujos tesouros e maravilhas permanecem apenas nos selfies dos smartphones. E que já foi denunciado como uma atividade predatória que ameaça a qualidade de vida de patrimônios históricos e culturais da Humanidade.
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O tema recebeu alguma ressonância, pois chegaram posts de leitores, denunciando péssimos serviços turísticos recebidos em viagens recentes. Uma mensagem vem de um casal de meia idade, maltratado ao visitarem duas das mais fascinantes cidades da Itália. Na bela Florença dos gênios renascentistas, as baixarias ficou a cargo de porteiros, garções, maitres e camareiras. Na próxima escala, em Veneza, a cidade favorita deles, novas decepções. Agora, com a participação de uma antiga casta, conhecida por sua proverbial cordialidade - os gondoleiros venezianos.
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Seria uma lástima se nossos viajantes perdessem o encanto pela Europa e por seu inestimável patrimônio de arte e civilização. Pois é necessário reconhecer que a antiga arte de viajar está em vias de extinção. Pois, em algum momento do século XX, foi substituída por uma gigantesca máquina multinacional que tem uma única bandeira - fazer dinheiro.
E naturalmente deixando um rastro de consequências ao longo das rotas turísticas ao redor do mundo. Na medida em que uma cidade ascende na lista dos destinos mais procurados, seus moradores se tornam menos acolhedores e hospitaleiros. Uma reação tribal facilmente compreensível - em cidades históricas da Itália os visitantes se multiplicam a cada ano, superando em centenas de vezes a população local. É notória a situação de Veneza, aonde o número de residentes vem caindo e hoje é metade do que era há 50 anos. E ainda, aumentou o turismo do tipo "one-day-visitor", que chega aos novos mega-ships de passageiros que invadem o Grand Canal, alterando o perfil da antiga cidade dos Dodges.
Como outras cidades europeias, estas comunidades carregam uma longa história de convivência com antigos valores culturais e patrimoniais, que agora precisam ser compartilhados com milhares de pessoas anônimas.
Séculos atrás, a chegada de visitantes era benvinda nos ajuntamentos ao longo das rotas de comércio, favorecendo a vantajosa convivência entre vendedores e compradores. No entanto, poucas urbes antigas foram projetadas para receber multidões de visitantes que superam as populações residentes. No final do século 18, se iniciam os fluxos organizados de viajantes com o fim exclusivo de lazer e descanso. Foi o tempo de consagração de cidades balneárias como Nice, ou a redescoberta de estâncias termais como Baden-Baden na Alemanha e Bath, na Inglaterra. Então, no século 20 entram em cena protagonistas para ditar os novos códigos da emergente indústria de viagens: a rede de hotéis Hilton, os transatlânticos da Cunard Line e os jumbos 747 da Boeing. São criados os hubs e projetos de mega-aeroportos. Las Vegas, Atlantic City, Orlando e Dubai se adaptam aos novos códigos, criando paraísos artificiais, equipados para acolher o turista que chega em busca de diversão, compras, comida farta e bebida barata. E que promete voltar no próximo ano.
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O mundo - e o turismo - se transformaram nos últimos 200 anos.
Em 1841, um viajante apaixonado abriu em Londres a primeira agência de viagens. James Cook sonhava em levar pessoas a lugares distantes e exóticos, mas sem abrirem mão do conforto de suas casas. Seus clientes eram transportados em trens de luxo e hospedados em elegantes hotéis e balneários na Riviera.
Ao tempo de Cook, o número de viajantes não passava de poucos milhares. Hoje, é um negócio multimilionário que movimenta nada menos do que 1.2 bilhões de passageiros por ano.
E a antiga arte de viajar? A caminho da extinção, mas ainda pode ser revivida na literatura, graças a personagens icônicos, como Gustav von Aschenbach em Morte em Veneza de Thomas Mann ou Lucy Honeychurch, de A Room with a View, o clássico romance de viagens de E.M. Forster.
Que, certa vez, observando as multidões de turistas que visitavam o Coliseu, em Roma, usou de refinada ironia:
"Está por surgir um novo negócio - construir relíquias históricas para enganar viajantes mal-informados."
Sentimento semelhante de desencanto assombrava igualmente outro viajante famoso, o escritor francês Gustave Flaubert, que, ao voltar de uma longa temporada no Egito, escreveria:
"- É sempre triste deixar um lugar ao qual sabemos que nunca mais voltaremos. São melancolias de viajante: talvez a única e mais gratificante recompensa que trazemos das viagens."
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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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