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Eu: idólatra, canalha e mau escritor

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Um leitor que se assina Regular Sized Randy – enfim encontro um nome mais idiota que Ernani Ssó, Cópia Autenticada ou Antônio Veado Prematuro – diagnosticou que estraguei meu talento e meu caráter ao idolatrar políticos. Não é grave que o Sized Randy pense assim – toda pessoa tem o direito inalienável de pensar inclusive que o chuchu pode justificar a existência ao menos como suflé –, mas, como fala em voz alta, seria razoável que não se escondesse atrás de um pseudônimo. Por nada não, só pra gente não pensar em covardia ou num processo por injúria e difamação.

Pra podermos discutir com clareza, copio aqui o comentário integral do Sized Randy. Ele foi feito a uma coluna minha do começo de maio intitulada “O banheiro da casa grande”. Retomo-o agora porque ando sem inspiração e assim ganho uma coluna praticamente de graça, sem falar que ele representa o pensamento em preto e branco de muita gente e eu gosto de lápis de cor, pintor frustrado que sou.

Com a palavra, o leitor: “Que triste ver um escritor com o talento do Ernani defender um bandido bilionário com clichês toscos do tipo ‘casa grande’ e ‘pobre andando de avião’, com direito a uma fanfic de última categoria (eu estava lá, eu era o alvejante!). Decididamente, idolatrar políticos faz mal não só ao caráter mas também ao talento”.

Em primeiro lugar, gostaria que o Sized Randy me apontasse onde e quando elogiei um bandido bilionário. Há, na rede, muitos textos atribuídos a autores que não os escreveram, vide Clarice Lispector e Luis Fernando Verissimo. Mas, que eu saiba, não há ninguém se passando por mim. Os impostores preferem se passar por gente famosa, não por um escriba obscuro, sem importância nem na rua onde mora.

Então, se o Sized Randy viu elogios ao Fernando Henrique Cardoso, que comprou pela metade do preço um apartamento de luxo de um banqueiro e uma fazenda com recursos que não se sabe de onde saíram, pode crer, não fui eu. Como também não fui eu que elogiou o Serra e o Aécio. Ou o Temer e sua quadrilha. Sem falar que duvido que essa gentalha, por mais que tenha faturado nas nossas costas, tenha chegado ao bilião. Pode ter chegado perto, mas ainda é apenas milionária. Os que chegaram ao bilião foram os corruptores, como o Joesley, os sacrossantos defensores da liberdade do mercado e da liberdade traçada com o indicador que aponta duro, “pero sin ternura”.

Mas, numa acusação, ladrão bilionário enche a boca, não é, Sized Randy?

Como na coluna essa lembro o episódio do vinho francês e afirmo que a casa grande não perdoa Lula por ter feito xixi no banheiro do palácio da Alvorada, o tal ladrão bilionário do Sized Randy não pode ser outro, confere? Se o Lula tivesse comprado o apartamento e a fazenda que o FHC comprou, a GloboNews, o Jornal Nacional, a Folha de S. Paulo, o Estadão, o Globo e vários outros falariam interminavelmente em crime: a história universal da infâmia política. Mas como FHC – que parece usar o filho mais velho como testa de ferro, feito o Serra com a filha – é FHC, continua paparicado. Até levam a sério o que o bestalhão diz, mesmo quando ele se contradiz de uma semana pra outra ou na mesma, como ocorreu dias atrás. Isso prova o óbvio: a corrupção só é escandalosa quando não é a elite bananense que lucra.

Posso usar elite bananense, Sized Randy, ou também já virou clichê?

O outro ponto é: onde está o bilião que o Lula teria roubado? Cadê os números das contas nos paraísos fiscais? Cadê os carros de luxo? Cadê os iates? Cadê a ilha em Angra? Cadê o apartamento em Paris na avenida Foch? Cadê os diamantes em bancos suíços como os do Cabral? Cadê a gravação pedindo grana? Cadê o vídeo da mala de dinheiro embarcando num táxi na calada da noite? Espera aí. Se quinhentos mil enchem uma mala, como se viu no caso do mandalete do Temer, o mafioso do Jaburu, quantas malas seriam necessárias pra levar um bilião? Contêineres não teriam facilitado o transporte? Em vez de táxi, uma frota de caminhões? Ou um navio?

O Moro esperneia, mas não conseguiu nem que as testemunhas de acusação confirmassem suas convicções, o que deve ser um recorde jurídico e deve levar o Moro ao Guinness. Fora o diz que diz, que deveria valer pra Justiça tanto quanto o comentário do Sized Randy, necas de pitibiribas.

Meu raciocínio é simples: se depois de três anos de investigação – suspeita-se inclusive que com a ajuda de agências gringas de espionagem e, sabe-se, expandida à família, amigos e quem sabe até a vizinhos – as provas não apareceram, das duas, uma: ou Lula é inocente ou é mais esperto que o FHC, o Serra, o Aécio e o Temer juntos. Ou ainda: Lula é inocente ou a força tarefa curitibana é de uma incompetência assombrosa.

Já sei, já sei! Pra não se comprometer, durante seus governos Lula acabou com os engavetamentos de processos, apoiou o combate à corrupção – vide lei 10.683/2003, primeira pista de sua manobra – e fortaleceu o Judiciário e a Polícia Federal. Como depuseram delegados federais, ele jamais interferiu nas investigações. Só um gênio do crime pensaria numa jogada dessas, né? Ainda mais com uma polícia com vários fãs do Aécio e assemelhados.

Mas e o bilião? Em novo lance de esperteza, ele escondeu o dinheiro em vez de gastá-lo. A Odebrecht enterrou o bilião sob o lago no sítio de Atibaia. Os pedalinhos serviam para levar a grana aos poucos, sem levantar suspeitas. Não, não. Isso seria muito demorado, precisaria de uns vinte anos devido ao volume da bufunfa.

Tenho uma hipótese melhor. Com a desculpa de desenvolver um programa espacial, o Lula botou o bilião em centenas de capsulas que estão em órbita. Como ele seria pego se começasse a esbanjar, porque não tem as costas quentes do Serra ou da mulher do Cunha, o plano dele é mais sutil: vai gastar o bilião na sua vida após a morte.

Mas, como estamos nessa vidinha de sempre do lado de cá da Ceifadora, fico à espera dessas provas. Elas aparecendo, atirarei pedra no Lula antes mesmo que o Sized Randy tenha tempo de pensar: “Eu não disse?”.

Li historiadores, sociólogos e economistas afirmando: o governo mais importante depois do de Getúlio Vargas foi o do Lula. Reconhecer isso é idolatria? Faça-me o favor, Sized, eu não idolatro nem escritores que reli mais de vinte vezes. Eu simplesmente não posso ignorar quarenta milhões de pessoas tiradas da miséria absoluta. Aviso, no caso de você querer contar, que quarenta milhões de pessoas é mais que meia dúzia. Dá um trabalhão.

Como também não ignoro o fato de que os rentistas deitaram e rolaram durante os governos Lula. Essa é minha maior crítica. Não engulo mesmo. Isso e a falta de coragem de ao menos tentar regular uma mídia absolutamente criminosa. Enfim, o Lula não é esquerda suficiente pra mim.

Nunca me interessei muito por política por um motivo simples: não confio no bípede implume. Mas sentar sobre meu ceticismo não me parece uma boa saída. Acho que devemos brigar, se não pra melhorar o mundo, pelo menos pra que não vá rápido demais pros quintos. É que tenho um filho, sabe? E sobrinhos. E amigos com filhos. Daí me preocupo um pouco com o futuro. Vá que esses imprudentes queiram ter filhos.

O fato de os números do governo Lula serem infinitamente melhores que os do FHC isenta Lula de críticas? Ou prova que no PT só há santos? Só um idiota chapado acharia que sim. É exatamente o que o Sized Randy me considera. Minha inteligência estaria limitada aos proverbiais Tico e Teco, os dois neurônios solitários que animam ou desanimam o cérebro de tanta gente. Certo que sou meio bobo mesmo, mas, depois de uns testes, me disseram que não estou abaixo de cinco neurônios.

Exemplos límpidos da ação do Tico e Teco? Há quem confunda Sérgio Moro com o milionário Bruce Wayne quando mascarado. É pouco? Numa manifestação, uma pessoa carregava um cartaz que dizia que Moro era o filho que Cristo mandou pra nos salvar. Idolatria é isso aí. Ou não, parece mais doença mental mesmo.

O Sized Randy considera “casa grande” um clichê tosco. Por quê? Trata-se de uma expressão muito clara. Mais, mesmo que fosse um clichê tosco, a elite bananense continua existindo, continua burra e continua voraz – a sua mentalidade ainda é a do dono de engenho. O Sized Randy faria melhor em se preocupar com a realidade desses brucutus que acreditam em sangue azul do que se melindrar com minha linguagem.

Pobre andando de avião não é um clichê. Trata-se de um fato ocorrido durante os governos Lula. Mas, de novo, mesmo que fosse um clichê, o fato continuaria real e a reação da elite bananense seguiria a mesma, com o mesmo nível de calhordice.

Por fim, o Sized Randy acha que a historinha que contei sobre um rico que mandou trocar o vaso sanitário em que o operário fez xixi é de última categoria. Por quê? Por que é grotesca e mostra um rico no triste papel principal? Sabe o que parece, Sized Randy? Que, pra defender o rico hiper-higiênico, você trata de desqualificar o que contei.

O Sized Randy acha que inventei isso. Olha, eu adoraria ter inventado, mas minha imaginação não dá pra tanto. Como qualquer ficcionista, eu invento sobre coisas e pessoas que conheço. Os muito ricos, por uma mera questão monetária, estão fora da minha vida cotidiana.

Outra coisa: o Sized Randy diz que a historinha é uma “fanfic” e que era uma forma de eu dizer: “eu estava lá, eu era o alvejante!”. Espera aí. Eu começo dizendo que um senhor que veio fazer um serviço aqui em casa me contou o caso. Dois mais dois: se eu sou o ouvinte, não posso ter estado presente, confere? A lógica do Sized Randy parece curitibana, poxa!

“Fanfic”? O Sized Randy não tem a menor ideia do que significa isso. Olha, meu caro, “fanfic” é uma ficção de fã. Um macaco de auditório qualquer pega personagens de livros ou filmes ou games e desenvolve suas próprias aventuras. Contar um caso que uma pessoa nos contou é só contar um caso que uma pessoa nos contou. Antes de tentar parecer culto e descolado, é melhor dar uma pesquisada, conferir as coisas. Só pra não dar vexame.

A conclusão do Sized Randy é pra lá de enfática: “Decididamente, idolatrar políticos faz mal não só ao caráter mas também ao talento”. Numa tacada ele diz que sou um canalha que escreve mal. Que eu escrevo mal, todo mundo sabe. Vamos então à minha canalhice.

Ela se deve à idolatria por políticos. Sim, no plural. Sized, por favor, me mande a lista desses políticos. Dito da forma como você diz, tanto posso idolatrar dez como cento e cinquenta. Caso não consiga achar um número acima de cem ou de dez, serve uma lista de dois. Só pra você não ser pego pela palavra.

Todas as pessoas que fizeram minha cabeça são da área da literatura. Cortázar, Borges, Kafka, Svevo, Conrad, Stendhal, Trevisan, Quintana e mais uns trinta ou quarenta, como já disse em várias colunas aqui mesmo. Se não acho que nenhum desses escritores é Deus, por que eu acharia isso de um ou de vários políticos? No mínimo, eu teria de ter passado por uma lobotomia nesse meio tempo.

Meus ataques aos Moros da vida têm uma explicação simples: o caso particular de Lula ou de outros é o de menos, o que interessa é o que está se fazendo do Estado de Direito. Eu acho a democracia uma bosta completa, principalmente a de fachada como a do Bananão, mas as outras opções fedem mais. Não tenho ilusão nenhuma: o que escrevo nem arranha a casca do Bananão. Mas ao menos tenho a satisfação de não ficar calado.

Olha Sized Randy, minha canalhice não foi tão grande que me levasse pra rua com o cartaz: “Somos todos Cunha”. Eu não estava gostando nenhum pouco do governo da Dilma, mas minha canalhice não foi tão grande que me levasse pra rua pra atropelar a democracia e botar a quadrilha do Temer no poder (dessa vez há provas e mais provas, aliás ignoradas soberanamente pelo Moro).

E você, meu caro? O que fez nesse meio tempo? Aliás, o que faz agora? Ou fiquei surdo, ou você e tua turma não estão batendo panela?

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.