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Gilmar Mendes, Deus e Henry Miller

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Sindicato de ladrões

Em 2015, quando a Dilma era o alvo do processo, Gilmar Mendes defendeu o uso de provas da Lava Jato na investigação. Com a veemência de sempre, disse: “Não podemos permitir que o país se transforme em um sindicato de ladrões”.

Quando o alvo do processo era o Michel Temer, o mafioso do Jaburu, Gilmar Mendes se torna legalista e não admite julgar o que está fora dos autos. O que mudou? Nada. Ou você não conhece o Gilmar?

Na certa Gilmar Mendes não considera um argumento o fato de ele não ser amigo há trinta anos da Dilma nem de não ter viajado em seu avião, quando ela era ré. Nem ter ido jantar ou almoçar com ela fora da agenda governamental. Nem ter dado consultoria grátis. Nem tê-la convidado pra dar palestras na sua faculdade, depois de denúncias escandalosas.

Na certa Gilmar Mendes considera inadequado intimidade com uma ré como Dilma, coisa não de um país, mas de um sindicato de ladrões.

TSE

Ele custa R$ 5,4 milhões por dia. Você sabe quem paga, seu otário? E me diz aí: não é grana demais pra uns caras entregarem pizza ou se vingarem dos inimigos?

Você sabia que, fora o Bananão, nenhum país tem jabuticaba, butiá e tribunal eleitoral?

Jabuticaba e butiá se justificam por si mesmos. De quebra, na cachaça, dão ótimos licores. Mas o que justifica o TSE, se nem com cachaça dá pra levar?

Deus existe

Quando a gente menos espera, topa com a verdade. Eu topei com a verdade lendo um jornal. Mais, eu nem estava atrás da verdade – estou velho demais pra me preocupar com ninharias. Antes, as contas do fim do mês, o ponto do bife, o rebolado da vizinha.

Mas eis que, entre uma escrotidão e outra do Bananão, leio que morreu Reinhold Hanning. Ele foi condenado por cumplicidade pela morte de 170 mil pessoas no campo de concentração de Auschwitz entre 1943 e 1944. Até aí nada. Vi a luz ao me deparar com esta informação: Hanning morreu aos 95 anos. Faça as contas, meu amigo. Isso mesmo, ele viveu 73 anos e uns meses depois de ter feito o que fez. Sem remorsos. Sentindo que cumpriu seu dever.

Trata-se de longevidade premiada.

Enquanto isso, crianças morreram de fome ou bala perdida. Enquanto isso, corruptos milionários foram premiados pra dedurarem os que corromperam com uma percentagem mínima do que roubaram. Enquanto isso, a Justiça encarcerou alguém por causa de um peito de frango ou ignorou provas mas teve inumeráveis convicções. Enquanto isso, os privilégios de 20 mil rentistas bananenses ditaram a política econômica que 200 milhões de pessoas padecem. A lista segue.

É evidente: apenas um Deus benigno, um Deus mais paz e amor que os hippies dos anos sessenta, poderia criar um mundo destes. Só essa humanidade poderia ser criada à imagem e semelhança Dele. Pense bem. Nada mais encaixa. Deus é a peça que monta o Lego todo do Universo.

Só me resta uma dúvida – mas uma dúvida avassaladora. Deus também seria responsável pela criação da calça boca de sino? Se foi, prefiro voltar a ser ateu. Como dizia meu avô, não sobre as calças boca de sino, mas sobre qualquer coisa inaceitável: até aí meus bois não puxam.

Primavera negra

Uma pequena tirada do Henry Miller em seu segundo livro: “Eu não sou um vaporizador do qual vocês possam jorrar um fino borrifo de esperança. Eu vejo a América espalhando desastre. Eu vejo a América como uma praga negra sobre o mundo. Vejo uma longa noite caindo e aquele cogumelo que envenenou o mundo secando nas raízes”.

Pequeno elogio ao velho bastardo

O pessimismo alegre do Henry Miller foi uma revelação pra mim, na adolescência. Achei que esse era o caminho, achei que isso era saúde: só porque o mundo é um horror eu vou ficar chorando pelos cantos? Continuo achando, ainda hoje. O Gramsci disse mais ou menos a mesma coisa, que devemos ser pessimistas no pensamento e otimistas na ação. A vantagem do Miller é que vemos na própria vida dele o que o aforismo reza.

Como o Miller, desejo o bem a todos e nenhuma pedra no rim. Hasta la vista.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.