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Minha participação em dois assaltos

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Sim, confesso: participei de dois assaltos. No primeiro, com revólver. No segundo, com faca. Sou fodão.

Porém. Nos dois, eu estava no lado errado do revólver e da faca.

No do revólver, senti apenas uma coisa: um súbito gosto metálico de uma obturação. Mas passou logo. O resto pareceu uma conversa banal com duas pessoas, apesar da rua mal iluminada. Era meio como se o revólver fosse de brinquedo, me entende? E o cara estava absolutamente calmo. Um profissional.

No da faca, o cara falou alto e ríspido. Me pareceu sinal de fraqueza. Por isso senti o perigo.

Não houve nada, fora o prejuízo e a consequente encheção de saco.

Me sinto um herói, como grande parte dos bananenses – não é mole sobreviver imprensado entre dois grupos de marginais perigosos. Um armado com revólveres e facas, o outro armado com as rédeas do Bananão.

Lembram do slogan da ditadura? “Ame-o ou deixe-o.” Sim, mas, como diria Noel Rosa, deixar o Bananão com que roupa?

República da mala preta

Vi uma charge do Villanova no GGN. Me pareceu ter sido abençoada pelo toque da genialidade: Temer e Moreira Franco meio escondidos no vão de uma porta; diante deles, uma mala com grana saindo por todos os lados; e Temer dizendo: “O primeiro que pegar, a gente convida pro ministério”.

O Bananão privatizado

Há décadas ouço o mantra de que precisamos privatizar tudo ou o Bananão vai pro beleléu. Isso pra começo de conversa. Depois ainda seria necessário suspender qualquer controle, pra não atrapalhar os negócios.

Me irrito e acho graça. É o que em geral me acontece com a estupidez. O diabo é que estou perdendo a graça.

Com as revelações em que vimos o Bananão entregue a empresários que usam o Estado pra financiar suas vidas bilionárias, a conclusão é óbvia: o Bananão foi privatizado. Pior, está na merda em que está justamente por ser de uso privado de uma quadrilha que o herda desde os tempos em que o Caramuru botou fogo numa tigela de aguardente.

Quanto a exigir total ausência de controle pros negócios, qual a diferença entre as aspirações da Máfia e as do neoliberalismo?

Assino embaixo

Parágrafo pinçado de uma crônica do esplêndido Aldir Blanc: “Vi no canal Bloomberg a seguinte pérola: ‘O mercado exige a continuação das reformas’. Qual mercado? Aquele que quebrou o mundo em Wall Street na megafraude de 07/08, ninguém preso? O da Fiesp? O de Pedro Parente Deles, onde o Brasil paga caro para explorar suas próprias riquezas?! O da ‘reconstrução’ da Halliburton no Iraque? Vão se fifar!”.

Faculdade Tabajara?

Gilmar Mendes disse que o Bananão está se transformando nas famosas Organizações Tabajara. Um dos humoristas que criaram as Organizações Tabajara tuitou que as Organizações se sentiam ofendidas com a frase do ministro e iriam botar seus advogados em ação. Gilmar Mendes, mais que depressa, se desculpou: não queria ofender ninguém.

Espero que alguém tenha contado pro Gilmar que ele fez um papelão.

Em seguida leio que a faculdade de direito em que Gilmar é sócio vai dar um curso ou algo do tipo chamado “7o Seminário Internacional de Direito Administrativo e Administração Pública – Segurança Pública a Partir do Sistema Prisional”. O anúncio no site da faculdade estampa propaganda da Caixa Econômica Federal (a faculdade levou perto de 90 mil na jogada) e o logo oficial do governo federal. Palestrantes: Michel Temer, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes, Alexandre Moraes e Torquato Jardim.

Precisa desenhar? Não, mas lembremos as figurinhas carimbadas. Cármen Lúcia: como se diz por aí, ela é especialista em cometer gafes e dar jantares. Também conhecida por frases de efeito pra jornais e tevês. Isso é tudo. Alexandre Moraes: plagiário e truculento. Entre inúmeras façanhas, ator principal de uma medida fulminante na guerra contra as drogas: arrancou uns pés de maconha pra sair na tevê. Torquato Jardim: como diz Jânio de Freitas, um ministro deplorável e patético. Não esquecer que Moraes e Jardim são cartas que Michel Temer tirou da manga, o que diz tudo e mais um pouco.

Michel Temer, com uma ficha suja que se estende por décadas, não poderia ser boa companhia de um juiz do supremo (mantenha-se a minúscula) e presidente de outro supremo (idem), o eleitoral. Mas, como não há pecado abaixo do Equador, Gilmar Mendes não vê inconveniente nenhum. O fato de o delinquente ser réu na corte que ele preside é apenas mais um detalhe inócuo em termos bananenses.

Como essa gente tem peito de dar palestra sobre segurança a partir do sistema prisional se, pra não falarmos demais e levar um processo, um dos palestrantes pode conhecer a segurança do sistema prisional de dentro do próprio?

A lição mais importante desse seminário é: com falta de vergonha na cara pode-se faturar os tubos.

Uma mãe chamada Bananão

A Ambev cresceu financiada pelo Bananão. Hoje é uma empresa belga. A JBS cresceu financiada pelo Bananão. Está prestes a ser uma empresa norte-americana. As duas vão pagar imposto lá fora, mas vão continuar faturando aqui dentro. Eta nóis!

Retrato 3×4 do Bananão

Entre os trinta membros do Conselho de Ética do Senado, vinte (doze titulares e oito suplentes) são indiciados por crimes variados. Mais: grande parte desse conselho foi indicada por Aécio Neves, o Gângster Desbocado. Mais ainda: o Conselho, pois é, de Ética irá julgar o caso do Gângster Desbocado (e inarticulado, aliás).

Passividade ativíssima

Aécio Neves foi acusado de corrupção passiva. Como é que é? O cara liga pra todo mundo pedindo grana, inventa obra pra pegar uma propina com empreiteiras, compra políticos pra ter apoio, contrabandeia emendas pra favorecer empresários. Porra, Janot: tinha corruptor correndo do homem, tanto era a insistência e a voracidade!

PS a esta coluna ou a todo o noticiário desde o tempo em que o Bananão ainda não produzia bananas

Acho que nossa literatura não está à altura do Bananão. Ou você já leu em algum conto ou romance uma cena como a das palestras do seminário do Gilmar? Nem vamos falar dos encontros do Temer no Jaburu, na calada da noite, ou da votação do impeachment. Nem dos – bom, a lista é longa e tenebrosa.

Eu gosto de ficção, até sou culpado de perpetrar algumas. Pior, eu gosto de coisas burlescas. Mas sei, a cada dia com mais clareza, que o Bananão está acima das minhas forças. O Bananão não precisa de um escritor, precisa de um monstro. Um? Muitos, uma legião. Não tem escritor, por mais genial que seja, capaz de dar conta sozinho da escrotidão e do carnaval que é este país.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.