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Paris, 1928

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“Ela tinha um rosto esculpido, vívidos olhos castanhos,

era vivaz como um pequeno animal e tão animada

como uma garota. Possuía belas pernas, era querida,

alegre e interessada. Adorava piadas e fofocas.

Ninguém foi tão legal comigo como Sylvia Beach.”

(Ernest Hemingway)

No dia 10 de outubro de 1962, uma notícia em meia coluna na primeira página do The New York Times causa um choque em toda uma geração de intelectuais norte-americanos. Em poucas linhas, o jornal informava que Sylvia Beach, que inventou a icônica livraria Shakespeare & Co., em Paris, havia sido encontrada morta em seu apartamento da Rue de l’Odeon. No dia seguinte, o jornal publica uma matéria de página inteira sobre a jovem de Baltimore que fez história, ao arriscar reputação e dinheiro ao publicar o romance Ulysses de um então desconhecido escritor chamado James Joyce. Ao escrever para novas gerações de leitores, a editora Marjorie Reid evoca o protagonismo de Sylvia Beach quando Paris acolhia centenas de escritores, poetas e artistas norte-americanos:

“Durante os anos 20, a capital literária dos Estados Unidos
era uma pequena livraria na Rive Gauche de Paris, em uma
rua junto ao Boulevard Saint Germain.”

***

Naquela manhã de segunda-feira, 19 de novembro de 1919, Nancy Woodbridge Beach pendurou em uma loja da Rue de l’Odeon uma pequena placa com a efígie de William Shakespeare e abriu as portas de sua livraria. Ela possuia um perfeito senso de timing – a Primeira Guerra criou uma geração de sem-pátrias e milhares de norte-americanos e ingleses chegavam a Paris para viver os anos dourados.

Nos cafés-concertos e cabarés, ouvia-se jazz, bebia-se cocktails e fumava-se Camel e Lucky Strike. A comunidade intelectual do Quartier Latin não demorou a encontrar seu ponto de encontro. Os primeiros a chegar foram André Gide, Paul Valéry, Georges Duhamel e Gertrude Stein, seguidos por uma legião de expatriados, como Ezra Pound, T. S. Eliot, Thornton Wilder, D. H. Lawrence, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e, finalmente, James Joyce.

A fama de Shakespeare and Company cresce do dia para a noite, mas não traz bons negócios para Sylvia Beach e Adrienne Monnier, sua sócia e companheira. Os candidatos à fama não tinham dinheiro para comprar livros e apenas os tomavam emprestados, mediante uma pequena mensalidade – e nem sempre os devolviam. O esquema não cobria as despesas e depois de dois anos, o lucro da casa foi de modestos 100 dólares. No entanto, Sylvia Beach nunca permitiu que o fracasso comercial diminuísse sua paixão por livros e escritores.

Na Paris dos anos 20, quem sonhava em escrever livros ou se limitasse a lê-los, conhecia o melhor endereço da cidade – o número 12 da Rue de l’Odeon.Shakespeare and Co. era um espaço híbrido – algo diferente das solenes livrarias parisienses – uma mistura de café e salão literário, com estantes abarrotadas do melhor que se publicava nos Estados Unidos e Inglaterra. Sylvia e Adrianne eram mais do que patronesses dos jovens escritores e poetas – a casa servia de caixa postal para quem não tinha endereço fixo nem dinheiro para frequentar os famosos Café de Flore e La Rotonde.

A ‘Geração Perdida’ de Gertrude Stein encontrara seu lar.

***

Em um domingo, julho de 1928, Adrienne convida Sylvia Beach para um jantar na casa do poeta André Spire. Ela reluta, mas aceita e as duas são recebidas calorosamente pelo anfitrião, que as assusta, anunciando:

“O maldito poeta irlandês está aqui.”

Era um jantar de boas vindas para James Joyce, arranjado por Ezra Pound que tentava introduzí-lo na comunidade literária de Paris. Em suas memórias, Sylvia Beach conta detalhes daquela noite, como quando sua atenção foi despertada pela figura escultural de Nora Joyce, com seus cabelos ruivos e ares de dama britânica.

O anfitrião André Spire convidara também o casal Zelda e F.Scott Fitzgerald; este se divertia desenhando as pessoas ao redor da mesa.

Ele retrata Sylvia e Adrienne como duas sereias e James Joyce de óculos, bigode e aureola brilhante. Scott desenha a si mesmo de joelhos, em reverência ao irlandês. Posteriormente, o desenho apareceria na primeira edição de O Grande Gatsby. Havia saladas, carnes frias, baguettes, vinho tinto e branco. Apenas um convidado recusou o vinho. Era James Joyce, que nunca bebia antes das oito da noite. Alegremente, Ezra Pound alinhou garrafas diante do poeta, para o caso dele mudar de ideia. Todos acham graça, mas Joyce fica vermelho de vergonha. Depois do jantar, Sylvia Beach aproxima-se de Joyce, que examina livros em uma estante. Hesitante, arrisca:

 “Você é o grande James Joyce?”

No dia seguinte, Joyce atende o convite de Sylvia e entra pela primeira vez na Shakespeare and Company. Usa um terno azul-escuro, chapéu mole de feltro e carrega uma elegante bengala. Admira uma por uma as fotos de Oscar Wilde e Walt Whitman, olha as estantes e pergunta  pelo valor da mensalidade para tomar livros emprestados. Nasce ali a intensa cumplicidade entre livreira e escritor, que traria à luz um dos monumentos da literatura moderna, o romance Ulysses.

***