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O mês mais cruel

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“O passado bate em meu peito como um segundo coração.”

(Epitáfio no cemitério Père Lachaise)

Rumores ou folclore? As estórias contam que ao chegar ao fim da leitura dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, o norte-americano William Faulkner, exaurido e confuso, teria arremessado o livro longe, exclamando:

“- O passado não existe.”

Não seria a única reação visceral provocada pela obra de Marcel Proust. É difícil encontrar alguém que tenha permanecido indiferente ao viajar neste caudaloso rio da memória. Proust nos convida a lançar um olhar demorado para as almas dos personagens e dos eventos que aconteciam na França e na Europa no século XIX. São sete livros – independentes e interlaçados – que invadem a vida interior de pessoas, devassando penas, amores, sonhos e desilusões, sempre envoltos na teia de implacáveis análises sociais e psicológicas.

Estamos no ano de 1922, que assinala o desaparecimento de Marcel Proust e a aparição de Sodoma e Gomorra, o quarto tomo de Em Busca do Tempo Perdido, considerado como chave para os enigmas e paradoxos lançados nos três volumes anteriores. Curiosamente, é neste mesmo ano que mais um livro-chave da literatura moderna se torna conhecido: Ulysses, de James Joyce, destinado a se transformar em obra maior da literatura de nosso tempo.

Coincidentemente, o escritor dubliniano (que igualmente gostava de lidar com fantasmas da memória) cria metáforas que podem ser elaboradas como genuinamente proustianas:

“Caminhamos através de nós mesmos, ao encontro de ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, irmãos, mas sempre ao encontro de nós mesmos.”

***

Mais uma vez, giramos ao redor do icônico ano de 1922. Ao tempo em que se publica Sodoma e Gomorra e Ulysses, o poeta inglês T.S. Eliot, de passagem por Paris, recebe oferta para editar seu poema The Waste Land. A proposta vem de Horace Liveright, editor amigo de Erza Pound, que o convence a publicar o que ele vislumbra ser o mais importante poema do século XX. É um longo poema, com cerca de 450 versos e que será considerado obra central da poesia moderna. The Waste Land é publicado em abril, quando Marcel Proust cai abatido pela doença que o mataria sete meses depois. Tristemente, ele não veria publicados os três volumes finais de À la recherche… Mas, ao contrário dos livros anteriores, mesmo gravemente doente, ele escolhe o título do último volume – Le Temps retrouvé.

As coincidências de tempo e lugar nem sempre são engenhos do acaso. Erza Pound dizia que a poética de T.S. Eliot era a nova e moderna busca da memória. Mais do que isto, The Waste Land hoje nos soa como um epitáfio da literatura do século XIX.

“Abril é o mês mais cruel, criando

lilases na terra morta, misturando

memória e desejo, ativando

raízes murchas sob chuvas de primavera.

O inverno nos manteve aquecidos, cobrindo

a terra em esquecidas neves, alimentando

uma pequena vida com tubérculos secos.

O verão nos surpreendeu, chegando à alta montanha

com saraivadas de chuva; paramos na colunata,

e fomos para a luz solar no jardim austríaco.

Bebemos café e conversamos por uma hora

nas montanhas, onde nos sentimos livres.

Leio muito à noite e vou para o sul no Inverno”.

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.