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A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa

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Não sei se vocês já perceberam esta situação. Não sei se você, leitor ou leitora, assíduo (a) ou esporádico (a), teve a consciência deste fato. Não sei se colheu a mesma impressão assustadora que a minha, mas vou, aqui neste espaço, compartilhar com vocês a sensação inesperada e preocupante que tive. Assim, de repente, não mais que de repente, eu descobri que metade do ano passou. Do nada. Sem cerimônia. Seis meses deste ano de 2017 já escapuliram. Não existem mais. Não poderemos mais partilhar vivências neste primeiro semestre. Pronto, serei mais didática: nunca mais teremos  janeiro, fevereiro, março, abril, maio e junho de 2017. Não poderemos mais viver esses meses neste ano.

Na terça-feira, 11 de julho, ao pagar uma conta no caixa eletrônico, ao digitar a data de vencimento, notei que entrei, definitivamente e irremediavelmente, na segunda metade do ano. E passei a pensar que, mais do que nunca, é preciso correr para cumprir com todos os planos que fiz para 2017. Lamento informar, mas percebi que tenho que correr muito e tal qual o coelho da Alice no País das Maravilhas a partir de agora tenho muita pressa, porque é tarde, ai meu Deus, é tarde, tarde. Tenho apenas cinco meses e uns 19 dias antes de findar o exercício de 2017 para amar quem não amei, ser mais carinhosa com os familiares, paciente com a minha filha amada, aumentar as minhas doses de perdão, dobrar meus momentos de generosidade e desculpar realmente as pequenas falhas.

Em menos de seis meses, devo cumprir com meus planejamentos de vida feitos na virada de 2016 para 2017. Uma das metas era procurar mais os amigos e amigas. Para evitar depois o sofrimento de distâncias doloridas que só tendem a aumentar quando o amigo ou amigo não pode estar mais com a gente. E a falta de dindin para realizar tais encontros não pode ser mais a desculpa. Então, nos próximos meses, a Dona Márcia vai precisar otimizar o seu tempo para organizar muvucas e rever estes amigos e amigas que guarda com imenso carinho no lado esquerdo do peito. Como sempre, a minha filha aparece nas minhas metas de melhorar as minhas ações nos anos que se iniciam. Creio que nos primeiros meses de 2017, os encontros entre nós foram maiores que os desencontros, mas tenho ainda, menos de 160 dias para aperfeiçoar nossos afetos e ser menos fiscalizadora, mais compreensiva, ignorar seus pequenos erros e acarinhar mais.

Algumas das metas foram, em parte, realizadas. Mas o calendário apontando para 11 de julho me mostrou que ainda tenho tempo hábil para ser uma pessoa melhor, intensificando o que não fiz e correndo para agir e fazer o que prometi. Embora tenha aumentado o meu tempo de leitura, é necessário ler mais. Imediatamente, vou separar alguns títulos que acumulam pó nas prateleiras. Dedicar mais tempo à audição de música, porque isto é essencial para o corpo e alma. Preciso ser mais calma. Exercitar em doses maiores a paciência. Ser menos ansiosa. Acreditar somente naquilo que depende única e exclusivamente de mim. E, principalmente, para não ter tanta decepção, ter em mente que as pessoas só podem doar o que realmente tem. Isto é, não esperar muito dos outros.

E, ao tomar consciência, mesmo que sem querer, de que metade do ano se passou, lembro com carinho do que escreveu o nosso poeta Mario Quintana no poema intitulado “O Tempo”, em que ele fala na efemeridade da rotina e diz que a vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. “Quando se vê, já são seis horas, quando se vê já é sexta-feira, quando se vê já é Natal, quando se vê já terminou o ano, quando se vê já perdemos o amor da nossa vida, quando se vê passaram 50 anos”. Por isso, prossegue o poeta, é tarde demais para ser reprovado. Foi exatamente o que senti ao me dar conta de que o tempo simplesmente disparou em 2017.

Como ensinou Quintana, se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. “Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas. Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo”. Simples não é? Porque gostamos tanto de complicar? Ainda dá tempo. “Não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará”.

 

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela PUCRS. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou carreira profissional, na Zero Hora, no Correio do Povo e em assessorias de comunicação social empresariais e públicas. É poeta, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS. E tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com.