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Chá para fantasmas

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“Gosto de caminhar na chuva porque ninguém me vê chorar.”

(Zelda Fitzgerald)

As vidraças amanhecem embaçadas, um aviso silencioso de que chegou o inverno. Da janela, nossa mãe observa a velha Matilde, do 306, subindo a rua a passos bem medidos. As lajes de ardósia estão escorregadias, cobertas pelas folhas amarelas dos plátanos. Ela caminha vergada contra o vento gelado e a chuva fina, segurando um decrépito guarda-chuva. Dos lados da Redenção, chega o som dos sinos da Santa Terezinha, chamando para a primeira missa do dia. Dona Matilde estaca e ergue o rosto de lado para ouvir melhor. A mãe comenta que ela não vai chegar a tempo para a missa das sete. Dá de ombros, como se dissesse ‘a vida é assim mesmo’ e começa a tirar casacões e mantas do fundo dos armários.

Parece que vamos ficar cheirando a naftalina por todo o inverno.

***

Do outro lado da Lagoa dos Patos, o vento Sul chega sem avisar, carregado de nuvens escuras como chumbo. O temporal desaba e as pessoas correm para o abrigo da casa e dos galpões. Portas batem, janelas são fechadas às pressas e logo surgem os baldes de zinco, tentando aparar as goteiras do telhado. Ouve-se a voz alta do avô, reclamando de alguém que deveria consertar as goteiras, mas deixou para depois e esqueceu.

No campo, o gado está imóvel, paralisado pelo ribombar dos raios e trovões. As mulheres desaparecem dentro das casas, reunidas ao redor do fogo, bebendo chá e rezando para Santa Bárbara e São Jerônimo. No galpão das carroças, o vento assovia nas frestas enquanto o velho Edu puxa a campeira para abrigar o corpo magro. Ele sente que não viverá outros invernos.

***

Subindo a ladeira da Ramiro até a esquina da Castro Alves. Toco a sineta da casa do ‘alemão’ Arno – quero livros emprestados para ler nas férias. É um dia de sorte, além de Emilio Salgari, levo também um Tarzan e um Karl May. Mas ficaram com ele minhas melhores bolinhas de gude – garantia que vou devolver os livros surripiados da biblioteca dos Dreher. A chuva chega forte e dizem que vai esfriar. A mãe alcança uma caneca de chocolate quente e começo as férias viajando pelo Velho Oeste. Escurece, o frio chega de vez, as venezianas das casas são fechadas e as lâmpadas dos postes, acesas. Uma linha mágica de luzes amarelas pisca no sereno e brilha nos paralelepípedos molhados. Começa na Independência, desce pela Ramiro e logo ilumina o Bom Fim. Meu pai chega, vai para junto do fogão aquecer as mãos. Liga o rádio Telefunken no noticiário da noite. O locutor anuncia que uma frente polar está no Uruguai e logo chega por aqui. O pai se serve de um clarete e confirma:

“Vai ser um agosto gelado.”

***

Mais de vinte invernos depois, poucos sobreviveram ao minuano e à chuva gelada da Lagoa. Dona Matilde, do 306, já não ouve mais o sino da Santa Terezinha. O peão Edu caiu doente e não mais levantou da cama de pelegos. E os claretes de meu pai envelhecem quietamente no fundo da despensa.

A caminho do jornal, reencontro o sopro gelado e úmido do Guaíba, que desfolha as árvores da Praça da Alfândega. As pessoas se encolhem, andando junto às paredes, procurando abrigo e bebida quente nos cafés. Na redação, os repórteres de plantão fumam o último cigarro do dia, com o olho no relógio de parede, esperando fechar a edição para tomar o rumo de casa. Rezam para que nada aconteça de importante, que os obrigue a refazer as manchetes. Uma hora depois, soa a sirene da rotativa, o prédio estremece e a redação se esvazia. Uns no caminho do abrigo de bondes, outros, em busca da canja quente do Mercado.

***

Mais um inverno. Muita vida por vir. E muita vida ficou para trás, como os vultos lentos na calçada molhada e os jornais de ontem, que já não dizem nada. Poucas pessoas na rua, um ou outro carro, a chuva parou, mas o frio gelado se instalou nos ossos, lembrando os ventos de infância. Ainda falta muito para as manhãs vivas e cheias de luz da primavera.

No quadro de avisos da redação, ficou esquecida uma folha com os rabiscos do poeta:

“Antes, todos os caminhos iam.

Agora todos os caminhos vêm

A casa é acolhedora, os livros poucos.

E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.”

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.