Congelada, imóvel e anestesiada pelo frio

Sinto muito. Mas lamento muitíssimo mesmo. Peço todo tipo de clemência. Rogo as desculpas dos meus leitores e das minhas leitoras (se é que …

Sinto muito. Mas lamento muitíssimo mesmo. Peço todo tipo de clemência. Rogo as desculpas dos meus leitores e das minhas leitoras (se é que ainda tenho em número significativo). Suplico o perdão de todos que acessam este site de forma frequente ou esporádica. Mas eu não consigo escrever. Não tenho como cumprir o compromisso assumido de enviar toda quarta-feira algumas linhas sobre qualquer tema para publicação aqui neste espaço. Simplesmente não é possível fazer os dedos irem procurar as teclas do notebook e esboçar algo parecido com um texto que possa ser apresentado como uma coluna, uma crônica ou escrito. Os dedos, que habitualmente passeiam com desenvoltura pelo teclado de notebooks, computadores ou tablets, com uma facilidade espantosa, estão totalmente congelados. Não se movem. Não tem vida própria e menos ainda obedecem aos meus sinais.
Aliás, preciso informar-lhes que não estou mais emitindo sinais. Percebi esta limitação no início da noite de segunda-feira, mas o problema agravou-se no decorrer do dia seguinte, apesar de uma enorme disposição para atividades no meu apartamento durante manhã e tarde. Depois de uma exaustiva e necessária limpeza nos armários da cozinha e de colocar alguns assuntos particulares em ordem, fui imobilizada pela baixa temperatura. Definitivamente, fui nocauteada pelo frio. E agora não só não consigo colocar os dedos próximos ao notebook (eles fogem como o diabo da cruz e parecem até ter vida própria), como sinto também que as ideias congelaram.
A noite de terça-feira, turno em que normalmente costumo escrever a coluna, me deixou atirada no sofá da sala, com aqueles trajes horríveis que se usa dentro de casa no rigor do inverno (camisetas - as mais antigas-, segunda pele - normalmente de uma cor absolutamente nada a ver com o resto-,  pijama de flanela, blusões de lã, mais de um par de meias, pantufas - tá, não de bichinhos-, manta ou cachecol no pescoço, um roupão aveludado e por cima um edredom). E tem gente que jura de pé junto que a gente fica mais elegante no inverno.
Nem tenho coragem para determinar nada. Nem vontade de executar alguma ação, braçal ou intelectual. Não disponho de iniciativa para sair do sofá nem mesmo para olhar o andamento da canja fumegante e deliciosa que comecei a preparar lá pelas 20h. Já escrevi (tenho certeza) em alguma coluna passada que sou um pouco especialista nesta iguaria. Pois adoro escolher um prato fundo geralmente da coberta de louça que passou de geração para geração, forrar bem seu interior com quantidade abundante de queijo parmesão ralado na hora, despejar uns goles auspiciosos do líquido da canja, e decorar com pedaços de ovo cozido e algumas doses generosas de tempero verde picado. Ah, acho que senti virtualmente leitores e leitoras salivarem com a minha descrição.
O frio intenso que invadiu o Rio Grande do Sul desde a noite de domingo, mas se intensificou e assumiu proporções preocupantes no entardecer de segunda-feira, paralisou a minha criatividade. Fechei todas as janelas e tapei qualquer resquício de fresta para impedir a entrada de mais frio. Cerrei persianas para não ver a noite gélida se desenhando pelo vidro. E me deitei, espreguiçada e agasalhada no sofá da sala, assistindo todos os programas disponíveis nos canais de televisão aberta e fechada. Sinto muito. Mas fiquei congelada, imóvel e anestesiada pelo frio.
 

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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