Houve uma vez uma rua sem camelôs

Não sei precisar a data exata. Não creio que tenha sido do dia para a noite. Não acredito que seja resultado de uma ocupação …

Não sei precisar a data exata. Não creio que tenha sido do dia para a noite. Não acredito que seja resultado de uma ocupação pontual. Entendo que foi um movimento gradual facilitado pela total ausência de fiscalização. Nem arriscaria dizer que a ocupação desenfreada começou lá no final de 2004, quando o Partido dos Trabalhadores perdeu as eleições para a Prefeitura de Porto Alegre após 16 anos de administração na capital gaúcha. Mas é hoje inviável transitar pela Rua dos Andradas, que responde pelo nada a ver apelido de Rua da Praia, no Centro Histórico da cidade, sem esbarrar nos ambulantes que tomaram conta do calçadão da via, mais precisamente no trecho entre a Rua General Câmara e a Rua Marechal Floriano.
Os camelôs se espraiam nesta quadra da Rua da Praia, desenhando um novo comércio disputado metro a metro entre as ruas General Câmara (antiga Rua da Ladeira), Uruguai, Avenida Borges de Medeiros e Rua Marechal Floriano. E o pedestre que necessita caminhar, a qualquer hora do dia (vejam bem), pelo entorno precisa fazer inúmeros exercícios de contorcionismo para não pisar nas mercadorias expostas sobre cangas, toalhas, tapetes e o que mais a criatividade dos "empresários informais" inventar para servir de prateleiras dos seus produtos. Caminhar pela Rua da Praia em tempos de ambulantes requer, por isso, paciência, resiliência e tolerância.
Precisa comprar mais algumas unidades de spinner (brinquedo que é a febre do momento e consiste num equipamento que quando impulsionado começa a girar freneticamente) para alguma criança da família? Na Rua da Praia tem. De todas as cores, tamanhos, materiais e preços. É só pesquisar. Mas se é urgente mesmo adquirir uma capa nova para o celular da filha/filho, não fuja: todos os caminhos levam até a Rua da Praia. As capinhas derramam-se no chão do tal trecho em cores diversas, figuras de todos os tipos e valores diferenciados, do tamanho do bolso do freguês. Esfriou repentinamente ou parece que vai desabar um temporal ? No chão da Rua dos Andradas, é possível encontrar blusões de lã de vários tamanhos, luvas, moletons e sombrinhas e guarda-chuvas por um precinho bem camarada.
No calçadão da Rua da Praia são vendidas bonecas, cachorros movidos a pilha que latem igual aos animais de carne e osso, quadros (para decorar todos os ambientes), relógios, bijuterias, rádios portáteis, pilhas e espelhos. No chão, habitados pelos camelôs, são comercializadas as tais antenas mágicas que permitem ao telespectador sintonizar qualquer canal da televisão aberta ou fechada, controles remotos universais, meias, calções e camisetas de times de futebol, diretamente importados do Paraguai, sapatos, perfumes, carregadores de celulares e os imprescindíveis veda portas a partir de R$ 10,00 a unidade. E por favor, me respondam: como alguém conseguiu viver até 2017 sem possuir um veda portas ? É uma mercadoria de extrema utilidade.
Vou esclarecer que não sou contra os camelôs e entendo que a situação econômica tá de mal a pior e que cada um se vira como pode para sobreviver. Mas daí a simplesmente os ambulantes invadirem todo o chão do trecho citado mais acima, tornando quase impossível caminhar entre uma toalha e canga estendida no calçadão sem ter que fazer mil desvios, tropeçar em brinquedos, roupas e toda espécie de produto e ainda necessitar aumentar o trajeto porque o meio do calçadão está tomado, já é outra história.
Na segunda-feira, bem no início da tarde, ao dirigir-me ao prédio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, situado na Rua dos Andradas, 1270, onde tinha uma reunião com alguns diretores para tratar das festividades de 75 anos da entidade, fui obrigada a fazer voltas e voltas porque os ambulantes ocupavam todo o espaço destinado aos pedestres. Umas duas horas mais  tarde, ao sair da reunião, vi que os camelôs tinham fugido do local, provavelmente intimidados por um veículo da Prefeitura que havia estacionado bem na frente da Rua Uruguai. Consegui, então, caminhar apenas uma quadra da Rua da Praia sem desviar dos ambulantes. Explico: na quadra mais adiante, entre a Borges e a Marechal Floriano, nem mesmo o carro da administração municipal (que lá estava parado sem nenhuma ação para coibir o comércio informal), serviu para afastar os camelôs.
E vamos à sessão saudosismo. Sou do tempo em que os fiscais da antiga Secretaria Municipal da Indústria e Comércio apareciam e um ambulante gritava "chuva" para avisar seus colegas que era hora de fugir com seus produtos. Sou do tempo em que os lojistas reclamavam da concorrência desleal por não pagarem impostos dos camelôs na frente de seus estabelecimentos. Sou do tempo em que cartão de crédito não era moeda aceita nas barracas destes vendedores informais. Sei lá. Sou do tempo em que era possível e agradável caminhar pela Rua dos Andradas. Porque houve uma vez uma rua sem camelôs.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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