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Literatura, política e a Grande Puta do Bananão

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Não penso nos leitores. Na verdade, não penso nem nas leitoras, que pra mim são mais perigosas. Sabe como é, pouca coisa me levou a cometer desatinos, fora as mulheres e a literatura.

Depois de uma declaração espampanante dessas, deixem eu me explicar. Um leitor que eu conheço, o Henrique Silva, acha que devo escrever menos sobre política e mais sobre literatura. Outro leitor, o Zeca Azevedo, que não conheço, acha o contrário. Sentiram o problema de querer agradar aos leitores?

Quando digo que não penso nos leitores, digo não penso tipo em alguém lendo por cima do meu ombro enquanto escrevo. Se pensasse, escreveria mais mal ainda – com medo de passar por tolo, na certa começaria a fazer piruetas como um cachorrinho amestrado ou, pra disfarçar, ficaria mais sério que aquele mordomo de filme de terror, quando esquece o Viagra e vê a mulher recebendo flores de um jovem corruptor.

Veja, não é o mesmo que falar em público. Em público há muito não tremo as perninhas nem quando improviso – tanto faz se esse público for de meia dúzia de pessoas ou de duas centenas. É que conheço o assunto de que falo. Tenho tudo fichado, tudo pensadinho, e nenhuma vergonha na cara.

Quando escrevo, não quero ninguém por perto, nem a Natalie Portman, caso ela se materializasse por aqui. Minto. Há uma exceção, o Fritz, como podem ver na foto abaixo, além de minha má postura e a falta que faz à minha imagem uma roupa mais adequada, como o traje chinês do Eça de Queiroz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A briga de escrever é com a expressão, me entende? Há algo – em geral obscuro, que mal se entrevê – que quer ser achado. Se não fico totalmente alerta, em vez de achar corro o risco de inventar ou me entregar à lógica das palavras e não das coisas. Quem é do ramo sabe que isso é fatal.

Escrever é mais uma questão de tato e faro que de inteligência – exceto no caso de ensaios, mas mesmo aí o tato e o faro têm grandes papéis. Pra encerrar, há a busca pela forma certa. Também aqui é preciso achar, não impor, porque entre forma e conteúdo não passa o fio de um sabre de luz. A verdade mais íntima de um autor não está no tema, mas no modo como ele o trata. Tenho dito – depois de milhares de outros.

Como se vê, o leitor não tem nada com isso. O leitor é um acidente. Ele vem, ou não vem, muito depois. Aí quase não importa.

Se os leitores pagassem minhas contas talvez eu pensasse diferente, vá saber.

Em todo caso, eu gosto de conversar com leitores, principalmente sobre os livros dos outros. Pode parecer pose, mas sou fiel à tirada borgeana: ler é melhor que escrever. Só pra começo de conversa: ao ler posso ser Conrad e Rabelais, Ivan Lessa e Cervantes. Posso ser até o Paulo Coelho, se um dia eu acordar masoquista. Ao escrever, consigo ser apenas Ernani.

Mas preciso dizer ao Henrique Silva que acho um saco escrever sobre política. Realmente, a política é mais limitada, mais repetitiva, mais fedorenta. Também é mais perigosa – é raro que as discordâncias em literatura acabem em pugilato e a presença da polícia. Como se não bastasse, fica a sensação de total inutilidade, de se escrever pra jogar o texto no lixo.

Mas o diabo é que não consigo pensar em outra coisa, nos últimos tempos. Pra mim é dureza assistir todo dia ao espetáculo do Bananão apodrecendo no meio da rua. Queira ou não, essa podridão atinge a todos nós, e o zumbido das moscas atrapalha minha concentração.

Lembram do Curzio Malaparte? Em Kaputt ou em A pele – desculpem a imprecisão, li esses romances há uns quarenta anos –, ele fala de prisioneiros amarrados a cadáveres. Aos poucos a decomposição do morto atinge o vivo. Como diz Malaparte, assim o morto come o vivo.

Eu, como milhões de outros pés de chinelo, estou amarrado ao Bananão. Daí minha ânsia de tentar entender por que o Bananão é o Bananão, não o Chuchu Beleza deitado em berço esplêndido. Como não acredito que seja devido a uma praga de madrinha, ou por algo na água que bebemos, ou porque os tupinambás enterraram um sapo seco embaixo do Pão de Açúcar, busco causas menos imponderáveis. A verdade pode não me libertar, mas pelo menos não apodrecerei ignorante.

Acontece ainda que ando meio de birra com a literatura. O Bananão tem bons autores, alguns grandes personagens, algumas grandes histórias, mas – aí está o furo da bala. As cores do Bananão me parecem mais vivas no noticiário, nas pesquisas do Jessé de Souza ou numa análise do jornalista Luís Nassif, por exemplo – cada matéria do Nassif nos dá um enredo prontinho pra um grande e revelador e sinistro romance policial que nenhum bananense escreverá, começando por mim. Isso não pode fazer bem pro meu ego de ficcionista, pode? Não sei o que meus colegas têm a dizer – vivo exilado aqui no morro Teresópolis.

A cada dia o Bananão me parece mais uma espécie de Apocalipse e desfile de Carnaval que, vá saber como, se misturaram na avenida. Tento desesperadamente acostumar meus olhos a tantos figurinos, a distinguir o que é Apocalipse e o que é Carnaval.

É uma celebridade em fantasia de luxo ou é a Grande Puta da Babilônia? Esta é a Besta ou um empresário corruptor? É um PM ou é o cavaleiro do cavalo amarelo? É a abertura do quarto selo ou a sentença sem provas, mas convicta? A estrela de absinto caiu na Amazônia ou foi uma barragem de mineradora que estourou?

Nunca minha condição de escriba mequetrefe deixou mais clara minha mequetrefice. Puxa, se eu fosse capaz de baixar no meu terreiro o Bosch, o Rabelais, o Maquiavel e o Cervantes – quatro caras que talvez pudessem dar uma palinha sobre o Bananão se fizessem um trabalho de grupo. Se ao menos eu tivesse peito de tentar e grana pra me manter durante a aventura, com meu conhecido e dispendioso vício de três refeições diárias. Se eu não escrevesse tipo água mole em pedra dura. Se a melhor idade não mostrasse a única coisa que tem de melhor sobre as outras: acabar rápido. Se – stop.

Melhor choramingar pelos cantos que em público.

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.