Os livros de meu pai

             "Decifre o passado antes que sejas transformado por ele." (Lewis Carroll) Não eram muitos. Na verdade, mal chegavam …


             "Decifre o passado antes que sejas

transformado por ele."

(Lewis Carroll)
Não eram muitos. Na verdade, mal chegavam a vinte, talvez pouco mais do que isso. Minha mãe contava que eram dos tempos de juventude de meu pai. Eu os descobri por acaso. Estavam guardados em uma prateleira na cristaleira, na sala de jantar de nosso sobrado. Deviam estar lá desde há muito, guardados e esquecidos por dezenas de anos. Eram edições antigas, encadernadas em couro, do tipo que não se compra em qualquer livraria. Livros que escondiam pequenos mistérios à espera de minha adolescente curiosidade.

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Passara-se algum tempo após a morte de meu pai, quando fui arriscar uma tentativa de inventário, tentando descobrir sobre a sua vida passada, muito antes de eu ter vindo ao mundo. Imaginei que aqueles livros poderiam ajudar, mas com medo do que poderiam me contar. Em um sábado à tarde, quando a casa estava quieta, abri as portas da prateleira de livros da velha cristaleira.   Eu estava pronto a bisbilhotar a vida passada de meu pai.
Mas um forte cheiro do passado me fez hesitar.
Por alguns minutos, fiquei imóvel, sem saber se devia mesmo fazer aquilo. Me sentia um intruso, penetrando em um esconderijo escuro do qual haviam esquecido a chave na porta. Afinal, pensei - não estava fazendo nada proibido. Retirei os livros, um a um e os empilhei no assoalho. Abri o que estava em cima. Nenhuma surpresa - uma biografia de Richard Wagner. Todos nós sabíamos que óperas de Wagner eram as favoritas dos amigos do pai - e de seus amigos alemães do clube de regatas. Eu mesmo lembrava dele assoviando A Cavalgada ds Valquírias, enquanto arrumava a mala para uma viagem.
Nos próximos livros, nenhuma revelação - eram novelas de Edgar Wallace e Allan Poe, com páginas amareladas e sinais de muito uso. Mas o que veio a seguir foi uma surpresa - Macbeth e A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca. Quer dizer que, meu pai gostava de Shakespeare e ninguém da casa - nem minha mãe - sabia disso?

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Os demais livros não trouxeram grandes emoções, a não ser a certeza de que a família não sabia dos hábitos e preferências literárias do pai. E, para confirmar meu aturdimento, ali estavam O Livro dos Sonhos, de Sigmund Freud e Assim Falava Zaratrusta, de Nietzsche. E ainda mais: uma edição em espanhol de A Odisséia, ilustrada por Gustave Doré. Eram revelações demasiadas para uma tarde quieta de sábado. Fiquei ali por um  tempo, procurando absorver minha descoberta. Depois, lentamente, recoloquei os livros de volta no lugar. Foi quando percebi no fundo do armário um pequeno volume de capa vermelha. E, sobre ele, duas chaves de ferro, uma grande e outra menor, do tipo que se usava para abrir os antigos baús.
Abri o livrinho - Era o clássico de Erich Maria Remarque, Nada de Novo no Front Ocidental, leitura obrigatória da geração entre-guerras. Na página de rosto, vi uma data e uma assinatura e logo reconheci a letra de meu pai. A data, ano, mês e dia eram as de meu nascimento, seguidos de um ponto de exclamação em tinta vermelha.

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Chaves de um baú que não existia e um ponto de exclamação ao lado de uma data de 1934. Até hoje, mais de 50 anos depois, ainda não entendi o que significavam.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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