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Seja um estuprador por apenas dez mil dólares

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Agora, na falta de uma mulher, você pode dispensar éguas, porcas, galinhas, cabras e cadelas. Talvez até tartarugas e enguias, que sei eu. Mas precisa ter dez mil dólares.

Sim, senhor, por dez mil dólares você pode comprar um robô da Roxxxy TrueCompanion com a aparência quase perfeita de uma mulher e que tem inclusive um simulacro de personalidade. Você pode escolher um robô – no caso, roboa, e nos dois sentidos – que não queira fazer sexo pra que você possa estuprá-lo. É o Farrah Frígida.

São dois sonhos em um, porque não dará cadeia, confere? Não estamos longe do que se passa na série Westworld, da HBO.

Tem gente que acha isso imoral. Seria como você fazer robôs que sangram ao serem esfaqueados pra que você pudesse viver impunemente o sonho de assassinar, vide novamente Westworld. Mais: segundo Laura Bates, autora de Girl up e fundadora do Everyday Sexism Project, ONG de apoio às mulheres, “pesquisas já mostraram que homens heterossexuais que são expostos à pornografia, a revistas voltadas para o público masculino e reality shows que objetificam mulheres têm uma maior probabilidade de aceitarem violência contra mulheres”. Parece fazer sentido, já que na pornografia as mulheres são apenas três buracos que gemem. Estuprar robôs pode ser um aprendizado e tanto. Também pode perder a graça logo. Quem praticou tiro ao alvo sabe do que estou falando.

Tem gente que acha uma boa: se uma mulher pode usar um vibrador, por que um homem não pode violar uma boneca? Peraí. Dá pra comparar? Se dá, como se viola um vibrador? A dificuldade de confundir um vibrador com um homem não é a mesma de confundir uma boneca com a aparência quase perfeita de mulher com uma mulher. A boneca tem inclusive temperatura humana, pode servir um drinque e gritar “Não, não, não!” de modo desesperado. OK, Laura Bates não menciona a parte dos gritos em seu artigo no New York Times, mas, se existem bonecas que servem um drinque se você apertar o mamilo delas, pode-se perguntar: por que a indústria pararia por aí?

Vai ser preciso esperar robôs bonitões pra serem agarrados pelas mulheres. Ou já existem e não sei de pô nenhuma? Mas, me pergunto, se no entrevero os robôs tiverem uma ereção? E se ela se mantiver, mesmo que ele grite “Não, não, não!”? A coisa pode ser classificada como estupro? Senhores advogados, cartas pra redação.

As religiões e o domínio da cultura pelos homens fracassaram na tentativa de criar mulheres totalmente submissas. Aí a ganância e a tecnologia deram um jeito.

PS aos robôs sexuais

Dias depois que escrevi a nota acima, li uma coluna do Hélio Schwartsman, na Folha de São Paulo, sobre robôs sexuais. Embora o argumento dele seja o mesmo que citei, pinçado do artigo de Laura Bates, vale a pena ver de perto: “Sou fã de especulações éticas, mas essa me parece despropositada. A menos que julguemos que o ser humano tem obrigações morais para com computadores, o que não está nem nos sonhos dos entusiastas da inteligência artificial, não há problema algum em estuprar androides ou cortá-los em pedacinhos. Fazê-lo não difere de desmontar uma torradeira”.

Uma torradeira tem aparência de torradeira e, mais incrível, serve apenas pra se fazer torradas. Se uma boneca é feita pra ser estuprada, se é feita pra ser confundida com uma mulher, se com o avanço tecnológico ela vai se parecer cada vez mais com uma mulher, me parece que entramos em terra incógnita.

A questão não é, ao contrário do que diz Schwartsman, que não se pode punir um crime imaginário, por mais asqueroso que seja. A questão é incentivar as fantasias criminosas. É bom, é ruim?

Veja, se um filme ou um romance – um bom filme ou um bom romance, digamos – trata de um crime terrível, o sofrimento da vítima vai aparecer, como também vai se esmiuçar os sentimentos do assassino. É o óbvio: ninguém vive no vazio, todo ato tem consequência. A ficção está aí pra nos fazer viver os papéis de vítima e assassino pra nos deixar uma pessoa mais complexa.

Só a ficção barata, de um esquematismo brucutu como se apresenta na pornografia, se lixa pra realidade e seus infinitos desvãos. A ficção barata é nociva pela burrice e pelo estímulo da burrice. Pra ver isso, basta comparar o efeito da leitura de Crime e castigo, do Dostoievski, com uma sessão de Dirty Harry, do Don Siegel. Já que o Clint Eastwood faz o Harry, compare com uma sessão de Os imperdoáveis. Como diz Jessé de Souza, falando do sentimento dos donos de escravos, “Sem que se considere o outro humano, não se carrega culpa ou remorso”.

Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia. Eu, hein, Rosa?

Autor
Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.