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Tempos líquidos

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“Ninguém sabe o que quer,

mas todo mundo sabe o que não quer.”

(Umberto Eco)

Um ano após sua morte, o escritor Umberto Eco permanece como uma figura desafiadora e polêmica – como o foi em vida. Seu último livro, recentemente publicado na Itália, começa provocador em seu subtítulo: Crônicas de uma Sociedade Líquida. Mas não tanto como o enigmático título: Pape Satàn Allepe. Uma escolha que sugere que o escritor foi muito longe em busca de inspiração – nada menos do que até as profundezas do Inferno de Dante Alighieri. Pois a frase reproduz o grito proferido por Plutão (não o planeta, mas o personagem mitológico) ao ver dois inesperados visitantes entrarem no Quarto Círculo do Inferno: Dante e seu guia Virgílio.

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O livro Pape Satàn Allepe deve ser mais compreensível do que o brado de Plutão. São crônicas escritas por Eco para o jornal romano L’Espresso. Nelas, Umberto Eco se vale dos versos da Divina Comédia para formular uma implacável crítica à realidade atual. Assim como os danados do Inferno percorrem um interminável e inútil círculo empurrando enormes pedras, nossa sociedade parece girar em torno de si mesma, sem saber aonde quer chegar. Eco afirma que a crise mundial fez desaparecer as poucas instituições capazes de resolver os problemas de nossos dias.

E lembra que as mudanças estão acontecendo mais velozmente do que nunca na História, o que retira das pessoas a capacidade de compreender o que se passa ao redor de suas vidas.

E, ao mesmo tempo, retira dos líderes e governantes a lucidez necessária para entender as transformações em suas vilas, cidades ou países.

Seriam os tempos da Modernidade Líquida, profetizados pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que o definiu como um “mundo repleto de sinais confusos e contraditórios, capaz de se transformar rapidamente e de forma imprevisível”.

Em conclusão – uma sociedade que vive em permanente crise, não consegue se entender prisioneira de seu “individualismo desenfreado, onde ninguém é parceiro de estrada, mas todos são antagonistas”. Estaria Eco sugerindo que a invocação Pape Satàn Allepe é um alerta sobre a danação eterna ou sobre o sombrio destino do mundo?

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As 180 crônicas do livro abordam os mesmos temas que o autor havia explorado em obras ficcionais, como em O Pêndulo de Foucault, O Cemitério de Praga e Número Zero. E, naturalmente, também inclui o que se espera de um bibliófilo empedernido – uma crítica radical aos novos hábitos de leitura e pesquisa no mundo digital. Mesmo sendo nostálgico em relação ao passado – onde tudo era mais previsível e organizado como nos livros – Eco demonstra que a cultura sempre foi excessiva em informações, mas soube manter a capacidade de filtrar, jogando fora o inútil e preservando o necessário.

A obsessão pela filtragem de dados é recorrente nos escritos do escritor, que o repete em Pape Satàn Allepe. Para ele, decidir o que guardar e o que descartar é uma ‘sutil arte’ onde, muitas vezes, a edição pode ser mais importante do que a informação em si mesma.

Ao longo das 420 páginas do livro podemos perceber embutida uma clara parábola. Assim como a história da civilização foi construída por toneladas de informações inúteis, que foram enterradas e perdidas, os condenados do Quarto Círculo do Inferno continuam a carregar as pesadas pedras por todo o sempre, por não terem se libertado de seus demônios e maldições.

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