A cidade pintada com as cores dos partidos de esquerda

Sei que na coluna da semana passada aqui no portal, enalteci as vantagens de se viver em uma cidade mais calma, mais tranquila, com menos tranqueira no trânsito, menos movimento nos cinemas, nos shoppings e nas lojas e filas reduzidas nos bancos, supermercados e restaurantes. Assim como Porto Alegre fica nos meses de janeiro e fevereiro, quando parte da população ruma para as praias. Portanto, não estou ficando louca, não ando batendo pino, não jogo pedrinha na água de tonta ou falta do que fazer. E aviso, não escondam suas crianças, nem chamem o síndico, nem chamem a polícia, nem chamem o hospício, eu não posso causar mal nenhum a não ser a mim mesmo.

Mas preciso admitir que adoro a movimentação que tomou conta da capital gaúcha desde domingo (21), quando jornalistas de diversos locais do Brasil e alguns até de outros países e militantes de diferentes partidos de esquerda e de campos programáticos semelhantes invadiram a cidade  para os atos preparatórios do dia 24, nesta quarta-feira, data do julgamento no TFR4, em Porto Alegre, do recurso da defesa do ex-presidente Lula em segunda instância no caso do triplex do Guarujá (São Paulo). Como já ocorreu, nos anos em que a cidade sediou o Fórum Social Mundial, Porto Alegre transforma-se na capital universal da democracia e é impossível não se sentir um baita (e este termo é bem daqui) orgulho de morar neste município.

Porque a nossa cidade sabe acolher, sabe acarinhar, sabe ser afetuosa e sabe, principalmente, do seu papel como protagonista de momentos importantes para a democracia brasileira. Porque a nossa cidade recebe como uma excelente anfitriã e recepciona seus visitantes com maestria ao ostentar, nos seus pontos turísticos mais conhecidos, as suas belezas e seus encantos. Porque a nossa cidade abriga seus hóspedes com amabilidade e esbanja alegria ao ver desfilando pelas suas ruas, avenidas, parques e praças os turistas que chegam com as camisetas estampando figuras de líderes de revoluções e passam pelos cruzamentos com as bandeiras de cores vermelhas debruçadas sobre os ombros.

E nestes dias, de grande afluência de turistas, Porto Alegre fica insuportavelmente complicada de transitar, de circular pelas ruas, de perambular pelos bares da Cidade Baixa, de cruzar pelas ruas principais do centro da capital e de pensar em se usar o transporte coletivo. Ao contrário do que escrevi na coluna da semana anterior, esta muvuca que ocupa a cidade com os eventos de partidos de esquerda termina me atraindo e me fazendo esquecer da chateação que é se viver numa capital movimentada. Porque a capital gaúcha ganha, nestes dias, o perfume da democracia, tem o aroma da diversidade, assume as cores da pluralidade e apresenta-se com a bandeira interessante da heterogeneidade.

Não é preciso ser filiado a partidos de esquerda para perceber como a cidade ganha com estes eventos. Como ela se diversifica, como ela se engrandece. Não é preciso ser defensor de Lula para ter a certeza de que ele é um grande político. Do contrário, não reuniria mais de 70 mil pessoas num final de tarde de calor intenso na Esquina Democrática, no encontro da Rua dos Andradas com a Avenida Borges de Medeiros, como aconteceu nesta terça-feira (23). Não é necessário estar preocupada com o futuro da democracia para temer o resultado do julgamento do TRF4. E nem é necessário ser um especialista em direito para saber que o processo do juiz de Curitiba é frágil e nem se sustenta do ponto de vista técnico e jurídico.

Mas eu sempre tive lado. Mas eu sempre admiti minhas preferências políticas. Mas eu nunca escondi que sou sim filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT). Mas eu nunca neguei que sou uma militante de esquerda. E estou envolvida sim na defesa intransigente do ex-presidente Lula, no seu direito de ser candidato e na defesa da democracia. Você, que me lê, com certa assiduidade ou esporadicamente, você que passou hoje pela coluna por acaso, você que ouviu alguém comentar sobre o assunto e passou os olhos ao acaso no portal, precisa é saber que as cores da democracia são lindas, mais atraentes do que os tons opacos da ditadura, e que a cidade de Porto Alegre fica especialmente majestosa quando recebe as matizes fortes e vibrantes dos partidos de esquerda.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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