A dificuldade do eleitor em votar em candidatos que representem sua cidade

A cada eleição geral, onde se vota para deputado estadual e federal, volta-se ao mesmo questionamento: Por qual motivo os eleitores destinam o seu voto para candidatos que não têm vínculos com a sua cidade/ideais ou não destinam o seu voto a nenhum candidato?

Cabe ao deputado estadual representar o povo na Assembleia Legislativa, fazendo as leis estaduais e fiscalizando o trabalho do Executivo. A mesma lógica para o deputado federal, que representa o povo no Congresso. Na prática, o deputado estadual é a voz de uma região no estado e o deputado federal representa a voz de uma região no Brasil. E uma região que não tem representação, não tem voz!

As pesquisas realizadas pelo IPO - Instituto Pesquisas de Opinião demonstram que a maior parte do eleitorado não confia nas instituições e nos partidos políticos, nem lembra em quem votou para deputado na última eleição, e nas eleições um terço dos eleitores tende a se alienar (votar branco, nulo ou se abster).

Um quadro que estimula um círculo vicioso: um distanciamento dos eleitores com a política e, por consequência, um sistema que favorece o afastamento dos representantes junto aos seus representados.

Este cenário é fomentado pela cultura política, onde o eleitor:

- Mostra a sua perplexidade diante dos intermináveis escândalos de corrupção;

- Não esconde sua decepção com políticos que prometem e não cumprem;

- Nem sabe quem são ou desconhecem as ações e a atuação de seus representantes.

O somatório destas percepções sustenta a ideia de que os políticos não visam ao bem comum e que atuam em causa própria.

Diante deste raciocínio, o eleitor acaba escolhendo o candidato mais por sua imagem/reputação do que por seus ideais ou propostas políticas. O eleitor escolhe o candidato com a 'melhor' imagem/reputação, como uma ação preventiva: "Escolher o menos pior".

A escolha de um candidato pela imagem não estreita os laços entre representantes e representados, mantendo o círculo vicioso de frustração. Para que haja o estreitamento desta relação é necessário:

a) Que o eleitor tenha consciência de sua demanda, reflita sobre o que deseja para a sua cidade (em relação à saúde, segurança, educação, infraestrutura, etc) e o que deseja para sua vida, no que acredita (em termos de crenças, como, por exemplo, privatizações, posição sobre pena de morte, aborto, reforma da previdência, desarmamento, etc);

b) Que o eleitor visualize os candidatos que defendem propósitos similares às suas demandas, percepções. Um eleitor que acredita que X deve ser feito precisa votar em um candidato que defende X e acompanhar a sua atuação;

c) Que o eleitor avalie o histórico dos candidatos e a capacidade destes em representar o propósito que apregoa;

d) Que o eleitor verifique os canais de comunicação com este candidato, seja de forma pessoal ou virtual, permitindo o acompanhamento das ações de seu parlamentar.

Os partidos políticos e os candidatos também têm responsabilidade neste processo. Os partidos políticos precisam diminuir o número de candidatos em cada região e destacar os diferenciais, o propósito e as bandeiras de cada candidato. Os candidatos, por sua vez, precisam se comprometer com estas demandas, lutar pelas mesmas e se manter conectados as suas bases, prestando contas com os eleitores.

Estreitar as relações entre representantes e representados é retomar o princípio básico da democracia representativa, onde as cidades tenham voz.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

Comentários