A internet como ferramenta e como doença social

Vivemos um novo momento em termos de interação social. A maioria dos gaúchos utiliza a internet e está conectada nas redes sociais. Em recente pesquisa realizada pelo IPO - Instituto Pesquisas de Opinião, verificou-se que 84% da população está presente nas redes sociais, ou seja, 8 em cada 10 gaúchos estão conectados. O principal dispositivo utilizado é o smartphone e muitos gaúchos fazem uso de várias ferramentas, como tablets, computadores, notebooks e até a smart TV, criando o chamado efeito multitela (quando uma pessoa usa simultaneamente mais de um equipamento).

O efeito multitela empodera o usuário, que pode assistir à televisão e comentar nas redes sociais o resultado do futebol ou da novela. Pode compartilhar percepções ou até fazer perguntas sobre uma reportagem. O efeito multitela aterroriza as agências de publicidade, que podem ter o seu comercial criticado e polemizado nas redes sociais no mesmo instante em que está sendo estreado na programação de uma rede de televisão.

O smartphone se tornou muito mais do que um telefone. É um companheiro das pessoas, anda sempre junto, está presente em todos os momentos. Acompanha no deslocamento, nas refeições, no local de trabalho ou estudo, nos exercícios e, em muitos casos, até no banheiro.

O GPS é um guia para o deslocamento e muitos nem conseguem imaginar o que seria andar com mapas impressos. Substituiu a máquina de fotografia e a filmadora e registra os mais variados acontecimentos do cotidiano, gerando milhões de imagens e vídeos.

É onde as pessoas fazem suas anotações e registram os seus contatos, ao ponto de nem mais memorizarem o número de telefone de seus principais contatos. Muitas e muitas pessoas caminham pelas ruas escutando à sua lista de músicas preferidas, se desconectando do mundo. E se conectam com o mundo no instante que quiserem, pois o smartphone possibilita o universo na palma da mão, acessar uma informação disponível em qualquer parte do planeta ou conversar com um parente distante em tempo real.

A internet associada ao smartphone e às redes sociais tem transformado a realidade social e a relação entre as pessoas: para o bem ou para o mal.

Sociologicamente, discute-se o papel da internet e das redes sociais na ampliação do individualismo. As pessoas se preocupam cada vez mais com a relação virtual e cada vez menos com a relação pessoal. Diminui-se a chance de conversar com uma pessoa em uma viagem de ônibus ou até mesmo de conhecer um amigo ou amor em uma festa, porque as pessoas estão ocupadas com o seu celular. Este dilema se torna mais severo no âmbito das residências, onde as famílias compartilham cada vez menos sentimentos, acontecimento, ensinamentos e experiências, pois estão ocupadas com o seu celular.

A psicologia discute os efeitos da distração digital que se caracteriza pela dificuldade de concentração que é ocasionada pela multitarefa, que cria uma atenção parcial contínua, de uma mente que pula de uma coisa para outra. É difícil a atenção simultânea ao estudo e ao WhatsApp ou trabalho e as postagens do Facebook.

E não se pode perder de vista que a internet pode causar dependência e se tornar um vício. A nomofobia é o medo de não ter acesso a um mobile, e se caracteriza pela angustia de não acessar a internet e as redes sociais, tornando a pessoa impaciente ou desesperada por ficar sem comunicação. Para estas pessoas o mundo virtual se torna mais importante do que o mundo real.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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