A música das ruas de Pelotas

Desde que comecei a escrever semanalmente aqui no Coletiva.net, dois temas têm se destacado por sua frequência nas minhas colunas: cinema e festivais de música e arte. O primeiro assunto ocupa desde sempre o centro dos meus interesses culturais e da minha atividade jornalística; o segundo não chega a ser uma novidade no meu radar, mas cada vez mais cristaliza-se no meu entendimento como uma poderosa alavanca de crescimento cultural e aprimoramento social - especialmente para as comunidades de fora dos grandes centros. Acompanhei no início desta semana o começo de um desses eventos que considero paradigmático aqui no Estado: o Festival Internacional Sesc de Música, cuja oitava edição deve mobilizar Pelotas até o próximo dia 26. Tive o prazer de testemunhar ao vivo o prazer e a leveza que a arte instaura no cotidiano das pessoas seguindo o alegre cortejo musical de abertura do evento, que saiu do Mercado Público na segunda-feira à tardinha e desfilou pelo centro da cidade - prova cabal de que a sociedade merece e deve exigir de seus governantes e lideranças empresariais mais atenção e incentivo à cultura.

Sedimentando Pelotas como um dos mais importantes encontros de professores e alunos de música erudita e instrumental da América Latina, o 8º Festival Internacional Sesc de Música recebeu mais de mil inscrições de estudantes de todos os cantos do Brasil e de vários países, dos quais cerca de 270 foram selecionados. A musicalidade literalmente toma conta das ruas: os transeuntes são envolvidos por uma colorida sinfonia de sotaques e idiomas oriunda das conversas entre os jovens que circulam carregando seus instrumentos nas mãos ou às costas. Durante as manhãs, essa espécie de orquestra heterogênea ocupa as salas da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), onde assiste a aulas específicas - de violino a eufônio, passando por composição e canto lírico -, ministradas por 50 professores de 12 países. Trata-se de uma oportunidade preciosa para esses aprendizes, que recebem lições de mestres como os integrantes do grupo alemão Ensemble Berlin, prestigiado conjunto de câmara que lotou os 1,3 mil lugares do Theatro Guarany no concerto oficial de abertura, na segunda-feira à noite.

Além das apresentações musicais diárias - todas com entrada franca e que incluem shows em um palco montado na aprazível Praia do Laranjal -, o evento se destaca por promover programações como a série 'Festival na Comunidade', que leva a música a diversos locais públicos e instituições pelotenses. Hospitais, escolas, asilos e centros comunitários são alguns dos roteiros traçados para receber espetáculos durante esse período. A relevância e o benefício desse tipo de ação são evidentes: vi nos rostos dos pacientes, enfermeiras, médicos e funcionários da Santa Casa de Misericórdia o encanto despertado pela visita de um trio de jovens músicos, que circulou pelo hospital na terça-feira de manhã enchendo os corredores com o irresistível som do chorinho. O evento ampliou ainda a participação de alunos vindos de iniciativas sociais: participam nesta oitava edição grupos formados a partir de projetos do Sesc de Minas Gerais, Piauí e Sergipe, além da Orquestra do Areal, de Pelotas. A série de concertos, que inclui formações de altíssimo nível como Carlos Malta e Pife Muderno e a SpokFrevo Orquestra, se encerra em 26 de janeiro com um grande espetáculo no Largo do Mercado Público, com a Orquestra Acadêmica e convidados, regidos pelo maestro Evandro Matté, executando trilhas sonoras de cinema consagradas.

Apesar de enfrentar dificuldades e problemas, como a precariedade do Theatro Guarany - que carece, entre outros equipamentos básicos, de climatização para combater a canícula pelotense -, o Festival Internacional Sesc de Música inegavelmente transformou a vida da cidade nos quentes janeiros. A parceria entre instituições privadas, poder público e organizações sociais que propicia esse encontro artístico e educacional é um exemplo a ser copiado por outros municípios gaúchos que almejem melhorar seu bem estar - e funciona como puxão de orelhas no omisso governo do Estado, que pouco tem feito para efetivamente promover a cultura entre seus cidadãos.

Autor
Jornalista e crítico de cinema, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa (artes, cultura e entretenimento), publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Neste período, também atuou como repórter cultural do caderno de variedades de ZH. Apresentou o Programa do Roger na TVCOM entre 2011 e 2015 e é é autor do livro "Mauro Soares - A Luz no Protagonista" (2015), volume da coleção Gaúchos em Cena, publicada pelo festival Porto Alegre Em Cena. Foi corroteirista da minissérie "Tá no Sangue - Os Fagundes", veiculada pela RBS TV em 2016. Atua como repórter e crítico de cinema no Canal Brasil.

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