A não comemoração do Dia da Mulher

Não quero um feliz dia. Quero ser feliz todos os dias. Quero ser respeitada todos os dias. Quero ter igualdade todos os dias. Quero mulheres ao meu lado todos os dias. Somos foda todos os dias! Esse é mais um dia de luta para celebrar tantos outros que já passaram e para lembrar que tem muito ainda pela frente. Apoie uma mulher. Dê suporte a ela. Abrace uma mulher. Dê espaço de fala para uma mulher. Contrate uma mulher. Indique uma mulher. Inspire uma mulher. Porque como já sabemos (e muitos têm medo): juntas somos mais fortes.

Foi assim que me manifestei sobre o porquê não comemorar do Dia Internacional da Mulher, 8 de março, na última quinta-feira. Além, claro, de ter compartilhado posts de mulheres incríveis e que expressaram como a maioria de nós, mulheres, estávamos nos sentido sobre esse dia. E se formos parar para pensar, é assim que a gente se sente todos os dias. Passei o dia olhando para as manifestações de alguns homens dando parabéns para as mulheres e fazendo declarações, que, confesso, até pouco tempo atrás eu acharia lindas, mas conhecendo alguns deles e suas atitudes reais, fizeram eu me sentir num oceano de hipocrisia. Até mesmo as lembranças do Facebook, trouxeram à tona toda uma mentira que era vivida por mim e tantas outras mulheres.

As marcas e empresas passaram menos vergonha em suas manifestações e na forma de celebrar a luta das mulheres nesta data. Pelo menos foi o que me pareceu. Ou seria o que não apareceu para mim? Mas conhecendo o meu círculo de amizades, tenho certeza de que se tivesse uma rateada, eu ficaria sabendo. Como foi o caso, da rede brasileira do McDonald's que, em uma ação de homenagem ao Dia da Mulher, resolveu realocar os homens e colocar somente mulheres para trabalhar em algumas unidades. Joinha para ele, né?

Aí tu começa a ter um pouco de esperança na humanidade e nos homens, mas daí chega o final de semana e tem Grenal na cidade. Enquanto o jogo acontecia, eu estava fora de casa, mas foi acessar um pouco as redes sociais que começaram a aparecer as escrotices masculinas do dia. Três relatos, por coincidência, foram feitos por jornalistas que estiveram no estádio Beira-Rio. A Kelly Matos, da Rádio Gaúcha, que estava indo como torcedora, contou a forma como foi abordada por dois caras a caminho do jogo e como uma mulher se sente desprotegida e ameaçada em uma situação dessas e, na maioria das vezes, dá graças aos deuses por apenas ter sido assediada verbalmente. Por mais que isso nos fira a alma.

Já a repórter, também da Rádio Gaúcha, Renata de Medeiros foi insultada e agredida por um torcedor colorado enquanto trabalhava no Grenal. Ela conseguiu filmar a agressão e colocou nas redes sociais. É uma covardia sem tamanho fazer isso, ainda mais sendo uma mulher. O Internacional se manifestou repudiando a atitude da criatura e que ele foi retirado do estádio pelos seguranças assim que agrediu a Renata. Essa violência, além de doer na alma, também atingiu o corpo.

E um último caso que foi divulgado, porque devem ter acontecido pelo menos uma dúzia a mais, foi colocado na rede pela Juliana Palma que estava no Beira-Rio a convite de uma marca para assistir ao jogo e flagrou um outro torcedor fazendo gestos obscenos simulando sexo oral em direção a um camarote com mulheres torcedoras do time adversário. As imagens são nojentas! Não tem como assistir aquilo e achar que é uma atitude normal.

"Ah, mas em estádio é assim mesmo. Isso é normal num ambiente como o futebol. É muito homem junto." Não me venham com desculpas esfarrapadas. Quem age desse jeito a caminho ou dentro de um jogo, age assim em qualquer ambiente. E não me venham dizer que os caras deviam estar de cabeça quente, que futebol é paixão, é explosão. Que estádio de futebol não é lugar de mulher! O CARAMBA! A gente vai ocupar o lugar que quiser, da forma que quiser e lidem com isso! Tenham o mínimo de respeito ao lidar com qualquer pessoa. Parem de achar que a gente tem que aceitar quieta esse tipo de coisa. Espero que todas elas tenham feito boletim de ocorrência, porque afinal existem imagens provando as ações desses seres. Que cada vez mais homens sejam punidos por assédio e violência contra as mulheres.

E ainda tem gente que acha que tem que parabenizar as mulheres e comemorar o 8 de março. Comemorar o quê, cara pálida?

Autor
Jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Marketing e mestre em Comunicação - e futura relações-públicas. Possui experiência em assessoria de imprensa, comunicação corporativa, produção de conteúdo e relacionamento. Apaixonada por Marketing de Influência. Atualmente, é gestora de Relacionamento com o Mercado do Share. Também integra a diretoria da ABRP RS/SC e é professora visitante na Unisinos e no Senac RS.

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