A Visita

Sentado no portal do casarão branco, Olegario Nunes pensava na vida que havia vivido. Debaixo daquela mesma figueira, criança ainda, ouvira encantado às conversas sobre mitos, lendas, espíritos errantes e heróis que morreram em lutas de fronteiras. Ele se fizera homem, mas ainda continuava ouvindo os mais velhos repetir casos de caudilhos, de foragidos ou gaudérios - dependendo do lado que vencera a última revolução. Aos poucos, foi entendendo que traição, covardia e medo faziam parte da paisagem da terra onde nascera.

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Naquele anoitecer de Outono, sentado sob a mesma velha figueira centenária, Olegario Nuñes pensou ter vislumbrado uma sombra estranha, toda negra, que batia asas em direção do sol poente. Aquilo o fez estremecer.

"- Seria um presságio para lembrar da morte próxima?"

Ergueu-se, passou a mão na barba branca e entrou na casa. Com gestos quase mecânicos, repetidos tantas vezes no passado, retirou sua velha Winchester dos suportes na parede. Engatilhou e esperou junto à janela. Ouviu-se um latido distante. Parecia mais um lobo do mato do que um cachorro vadio. Um cavaleiro surgiu, subindo a estrada estreita paralela ao rio. Não se via o rosto, coberto pelo chapéu preto de abas caídas.

Preta também era a montaria que vinha a passo largo, quase trote. Mas não se ouvia som de cascos na terra batida. Olegario Nuñes tomou posição, afastou as pernas, o corpo retesado, como uma mola pronta para disparar, as mãos ferradas na coronha, tão familiar depois de tanto manuseio. Apontou para um ponto imaginário no caminho que o intruso deveria fazer para chegar ao pátio. O tempo passou lentamente, nenhum latido, nem pio de passarinho.

Ele sentiu o suor escorrer pelos braços. Suor frio, de velho que tem medo, pensou Olegario.

Então, cavaleiro e cavalo entraram na linha de mira. A Winchester explodiu uma, duas vezes. O cavalo negro estacou e o homem de chapéu preto abriu os braços, dobrou-se sobre si mesmo e desabou para o chão, levantando uma nuvem de poeira. A detonação ecoou pela casa vazia, levantou as aves que dormiam nos umbus e assustou os cachorros nos galpões. Os tropeiros e peões, acampados do outro lado do rio, acorreram assustados. Ao cruzar com o cavalo negro que galopava para longe, engatilharam suas garruchas de dois canos.

Chegaram todos juntos onde estava o grande vulto caído, com uma feia mancha de sangue negro empapando o peito. Um deles se inclinou e retirou o chapéu do rosto do morto. E todos tomaram um susto ao ver o rosto sereno e sem vida de Olegario Nuñes.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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