As mães nunca morrem

Diversos escritores e escritoras já se debruçaram sobre a difícil missão de falar sobre as mães e tentaram explicar a enorme falta que elas fazem na vida diária de seus filhos e filhas. Uma das obras mais lembradas é a poesia 'Ser Mãe', do Coelho Neto, em que ele diz: "Ser mãe é andar chorando num sorriso, ser mãe é ter um mundo e não ter nada, ser mãe é padecer num paraíso". Sensacional. Mais pura verdade. Famoso também o poema do Carlos Drummond de Andrade em que ele pergunta "por que Deus permite que as mães vão se embora, mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não se apaga, quando sopra o vento e chuva desaba, morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio, mãe na sua graça é eternidade".

Quando minha mãe Mirthô estava viva aqui neste plano e, especialmente, depois que eu tive a minha filha Gabriela, sempre fui fã de carteirinha do poema do Coelho Neto, por entender que ele descreve, com soberania, as dores e os sentimentos de todas as mamães. Afinal, qual mãe não se desdobra fibra por fibra o coração? Logo que Mirthô faleceu, há quase sete anos, encantei-me com a poesia do Drummond, por que se um Deus existe, seja ele chamado de diferentes nomes e sobrenomes conforme as crenças e religiões, como pode deixar que as mães encerrem sua existência e não mais compartilhem as alegrias e tristezas com seus rebentos e rebentas. No meu luto, partilhava da mesma ideia do Drummond de um Deus maldoso.

Com o decorrer dos anos, a convivência mais harmoniosa com o luto e a domesticação da saudade, que não fica um único dia sem bater ponto nos meus sentimentos, passei a entender que as mães não morrem nunca. As mães jamais morrem. Pelo menos a minha mãe amada Mirthô. Ela é uma presença constante em todos os dias e noites da minha vida. Não tem um segundo sequer em que eu não lembre de alguma frase da Mirthô. Não tem uma situação em que eu não imagine o que ela estaria fazendo se estivesse ali ao meu lado. Não tem um dia do meu aniversário em que eu não acorde às 8h da manhã (isto é uma exceção já que sou dorminhoca) para esperar o telefonema de parabéns da minha mãe.

Ao fazer invenções de pratos na cozinha, é na minha mãe que penso e imagino a expressão de felicidade dela ao ver a filha mais avessa às panelas excursionando nos dotes culinários. Sempre que marco um café com alguma amiga no shopping que ela gostava de frequentar, costumo chegar uns minutinhos antes do agendando para ficar um pouco ali sozinha, e tenho a nítida impressão de que minha mãe dá uma espiada se estou abusando do açúcar para adoçar o líquido, como ela fazia. Na combinação das festas de final de ano com a cunhada Flávia, sei que minha mãe acompanha nossas conversas e volta e meia uma de nós duas deixa escapar: "Ah, se a Mirthô estivesse aqui, já teria terminado este prato e enrolado este presente".

Se tenho qualquer indisposição de saúde, imediatamente penso no que a minha mãe receitaria para reduzir ou eliminar o problema. Quem sabe um chá, uma canja ou um banho quente e cama? Se brigo com alguém por motivos banais e que não deveriam motivar uma discussão, na mesma hora imagino a cara da minha mãe dizendo: "filha, deixa de ser tão esquentada, tão explosiva e releva um pouco". Às vezes, até sigo os seus conselhos e reverto a situação. Se sou muito exigente com a Gabriela, no mesmo instante ouço a voz da minha mãe a defender a neta querida e falando: "ai, Márcia, tu também foi adolescente, fez das tuas e aprontou bastante. Pega leve com tua filha". E não é que Mirthô sempre tem razão.

Nos últimos anos, ao perceber que minha mãe está presente constantemente na minha rotina, que suas frases, conselhos, orientações, ensinamentos, educação e amor estão sempre no meu dia a dia e que seu coração continua pulsando e segue batendo na vida de cada filho e filha, encantei-me mais com um pensamento que encontrei nas redes sociais e cuja autoria é atribuída a Marcos Luedy. Ele diz: "As mães nunca morrem, elas entardecem, tingem de nuvens os cabelos e viram pôr do sol".

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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