Carga horária e sangue no olho

Por Flavio Paiva

O México, segundo levantamento da OCDE, é o país onde se trabalha o maior número de horas: 2.258. Se considerarmos como hora trabalhada unicamente a hora presente em um emprego ou home office, este número irá aumentar. Mas a questão não é esta.

A questão que se impõe é: aonde o México chegou trabalhando tanto? Não é das maiores economias mundiais, além de estar sendo rejeitado (seus cidadãos, em verdade) pelo presidente Trump. Portanto, outra questão é: vale a pena trabalhar tanto? É necessário (podemos entender que os cidadãos mexicanos precisam trabalhar tantas horas em função da concorrência no mercado de trabalho e para construírem um ganho mensal que o sustente)?

Independente de quais sejas as questões envolvidas - que aqui não é é meu objetivo - fico refletindo se vale a pena trabalhar tanto. Quer do ponto de vista da ambição e conquistas, ou seja, trabalho mais e mais para conquistar mais e mais, quer do ponto de vista da produtividade e demanda tecnológica.

Porque quanto mais dados e análises temos, quanto mais experiências do cliente tivermos, mais produção de resultados - e dados. E se boa parte do processamento e análise cabe às máquinas, aplicando Big Data, Machine Learning e IA, por exemplo, sempre será necessário o indivíduo, o ser humano. Seja para decidir estrategicamente o que fazer com tudo isto, seja para planejar e visualizar pelo menos 5 caminhos e objetivos, seja para efetuar a própria aproximação/negociação pessoal.

Embora o uso de tecnologia esteja sendo amplamente difundido para conferences, face times, etc, gerando mais produtividade e aproximando pessoas, nada(nada mesmo, afirmo sem medo de errar) substitui a reunião pessoal, o olho no olho, a leitura corporal e até mesmo aromas e paladares (uma reunião feita em um jantar, por exemplo, ou mesmo um happy). Isto sem falar no aperto de mãos ou na reverência, dependendo de que povos estamos falando, se ocidental ou oriental. Então - e voltando ao início - a questão é como estão sendo trabalhadas estas 2.258 horas.

Afora isto, se necessitamos de muito sangue no olho e faca nos dentes, também precisamos de reflexão, pausas, algum lazer, amores e amizades. Não entendam que estou desprezando o sangue no olho e a faca nos dentes, pois só assim para atingir objetivos crescentes, um mercado agressivo e competitivo (e mundial). É preciso acordar motivado e forte nas manhãs. E muito! O mundo segue girando cada vez mais rápido e não é um ambiente fácil, isto já se sabia desde os homens das cavernas.

Porém, ao longo destas décadas de atuação profissional, se sigo acordando cada vez motivado e com sangue no olho, também aprendi o valor inestimável de algumas outras coisas (já citadas acima). Elas fazem parte dos pilares da motivação e lhe darão energia para entrar na arena capaz de enfrentar qualquer desafio. Se são mais horas trabalhadas ou horas melhor trabalhadas, deixo a reflexão para o amigo leitor.

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