Como está não pode ficar...

Semanalmente o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião ouve centenas de cidadãos e a frase corrente é mesma: COMO ESTÁ NÃO PODE FICAR!

Esta afirmação aparece como relato-síntese de diversos dilemas cotidianos: nos argumentos contra a política e os políticos e, em especial, na desolação com a corrupção endêmica do País. Perpassa fortemente a segurança pública e a situação econômica e reforça a frustração em relação às mais variadas mazelas sociais: saúde, educação, infraestrutura, etc.

Mas as críticas da população não se limitam à política, aos governos ou à ausência de políticas públicas eficientes. É cada vez maior a crítica em relação à cultura política vigente, ou seja, a população criticando o comportamento da população.

As críticas focam exemplos associados a comportamentos objetivos, como por exemplo: comportamento irresponsável no trânsito (motoristas que andam devagar na esquerda, motoristas que trocam de faixa sem sinalizar, motoristas que utilizam o celular enquanto dirigem, pedestre passando em faixa de segurança com sinal vermelho, etc...), desleixo quanto ao meio ambiente (população que joga lixo ao lado de contêineres, que joga lixo em terreno baldio ou canais...).

E as críticas também estão associadas a comportamento subjetivos tais como reflexão em relação ao jeitinho brasileiro (que começa com o reconhecimento da utilização do jeitinho - em torno de 60% dos gaúchos reconhecem que realizou no último ano alguma das práticas abaixo, visando ao autobenefício e que pode prejudicar outrem), tais como:

- Não dar nota fiscal;

- Não declarar Imposto de Renda;

- Tentar subornar o guarda para evitar multas;

- Falsificar carteirinha de estudante;

- Dar ou aceitar troco errado;

- Roubar sinal de TV a cabo;

- Furar fila;

- Comprar produtos falsificados;

- Bater o ponto pelo colega no trabalho;

- Falsificar assinaturas.

Há, também, uma linha de pensamento que está muito preocupada com a diminuição do sentimento de comunidade (pessoas que reclamam do aumento do individualismo e a relação com a tecnologia, com a falta de união, com a desagregação e o apoio familiar, com a falta de valores e de crenças).

Nos últimos anos, a indignação da sociedade se converteu em uma apatia social sem precedentes, que faz com que a maioria acredite que deva ter manifestações (70%), mas se esquive em participar (60%) (terceirizando a responsabilidade para os outros). É mais ou menos assim: Como está não pode ficar, e alguém precisa fazer alguma coisa, mas não eu!

O conjunto destas críticas contra a situação vigente é um sinalizador importante para uma reação futura da sociedade, o fundamento para uma revisão de comportamentos.

Entretanto, para que esta situação ocorra será necessário que haja o acirramento dos problemas e a capacidade de as pessoas refletirem, debaterem e compartilharem ideias com outras pessoas. Essas ideias precisam ser representadas por associações de bairro, movimentos sociais, entidades de classe, sindicatos ou partidos políticos. Não é à toa que novos movimentos da sociedade civil começam a aflorar, tais como Agora http://www.agoramovimento.com/, Renova http://renovabr.org/ e Acredito https://www.movimentoacredito.com/.

Há vários desafios pela frente, que perpassam a reflexão da cultura política vigente e de sua relação estreita com o jeitinho brasileiro e termina na reforma do sistema político, que deve reprimir a corrupção e fomentar a participação da população.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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