Cotidianos

 

 "Nos dias cotidianos é que se passam os anos".

Millor Fernandes

Alguém já escreveu que a felicidade não existe assim como a sonhamos e a desejamos. O que realmente vale, no final das contas, seria a soma daquelas pequenas felicidades que vivenciamos no dia-a-dia e às quais raramente damos o devido valor. O poeta Mário de Andrade era um angustiado observador do implacável passar do tempo. É dele esta primorosa joia do pensamento existencial:

"Contei meus anos e descobri que terei menos

tempo para viver daqui para a frente

do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu

uma bacia de cerejas...

As primeiras, ele chupou displicente, mas

percebendo que restavam poucas, agora rói o caroço."

Na verdade, desde que nos entendemos por adultos, nos vendem sonhos superlativos de felicidade. Mas, observando aqui e ali, amigos e parentes frustrados por não terem alcançado esta mítica felicidade vamos, aos poucos, construindo a certeza de que a felicidade, ao contrário do que ensinam os contos de fadas e os velhos musicais da Metro, não é um estado mágico e duradouro.

Então, nos voltamos para a realidade diária. E ali estão, ao nosso alcance, em homeopáticas doses, as pequenas felicidades que nos cabem, ou como queria o escritor J.M Foster, certos preciosos Remains of Happiness.

Um livro que redescobrimos no fundo da estante, uma rosa amarela que brotou escondida, aquele pôr do sol que não conseguimos descrever, um sorriso amigo. Delicadezas fugazes que a rotina apressada nem sempre nos permite apreciar - mas que estão ali ao nosso lado.

***

Um velho amigo, que ficou nas dobras do tempo e que não mais consigo reencontrar, era alguém que se poderia classificar como um 'colecionador de pequenas felicidades'. Ele mesmo dizia que gostava de contabilizar tudo de bom que lhe aparecia pela frente. Quando a rotina e os aborrecimentos dos negócios o oprimiam, ele simplesmente largava tudo e embaracava em um trem, em um ônibus, para alguma cidade onde nunca estivera antes.

Lá chegando, se dirigia à praça principal, sentava a um banco e por ali ficava por horas e horas olhando as pessoas, os pombos e ouvindo o sino da igreja bater horas e meias-horas. Então, tomava o trem de volta, se sentindo leve e desanuviado, contabilizando alegremente as minúsculas felicidades que colhera ao longo do dia. Era este mesmo amigo que se mostrava impaciente ao ouvir pessoas dizerem que estavam à espera que algo grandioso e transformador acontecesse em suas vidas:

"...Quando meus filhos crescerem...",

"...Ainda vou ganhar na Mega Sena...",

"... Estou à espera de alguém que me mereça...".

E tentava convencer as pessoas que a felicidade não está em um pote dourado no fim do arco-iris, mas ao nosso alcance - quase sempre sem convencer ninguém. Um dia o fui visitar em seu escritório, instalado em uma casa com fachada de azulejos portugueses no lado antigo da cidade.

Em cima de sua mesa, notei um seixo rolado com algo gravado. Ao notar meu olhar curioso, contou a estória da pedra. Voltou-se para a janela, de onde se via um grande navio a caminho da barra que dava para o mar. Contou que voltando de uma viagem a trabalho, fez uma escala não-programada em um porto do Mar Egeu. Tirou o dia para passear, deixou a cidade para trás e saiu caminhando pela praia. Entrou em uma pequena tenda e notou um artesão esculpindo seixos brancos trazidos à praia pelas tempestades. Eram pedras polidas pelo desgaste do tempo, com vários tamanhos e matizes.

Em todas elas, o homem sempre gravava as mesmas duas palavras. E disse que fazia aquilo há muitos anos, mesmo sem entender bem seu significado.

Apenas gostava do som daquelas palavras, que ouvira a primeira vez de um velho marinheiro. E as repetia em voz baixa, como em um mantra ancestral:

"Carpe Diem...Carpe Diem...Carpe Diem..."

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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