Dever de casa

Deve-se sorrir porque o sorriso é a única cauda que temos.

Deve-se dar risada para não ser solene. Dá uma trabalheira danada engomar atitudes ou fazer vinco no entusiasmo.

Deve-se gargalhar porque não existe eco melhor no vale de lágrimas.

Deve-se achar graça a qualquer preço, sobretudo porque a carestia impede que a graça vá de orelha a orelha.

Deve-se rir sem motivo porque nada é tão motivacional.

Deve-se aproveitar tudo que restou de engraçado neste mundo, ou até do outro.

Deve-se rir de si mesmo, para evitar sair do sério.

Deve-se soltar gaitadas pelo simples fato que é mais fácil que tocar sanfonas e acordeões.

Deve-se estocar risos para os tempos de piadas magras.

Deve-se buscar o risível porque de outra forma ele passa pela gente sem nos reconhecer.

Deve-se rir antes de dormir para acordar, quem sabe, com vestígios dele na cara.

Deve-se rir porque as desgraças vêm e vão, vêm em vão, vêm nos vãos, vêm nos vaus, vêm em vans. Elas vêm nos ver, e, um dia, ficam.

Etc.

Autor
Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

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