Dias melhores, dias de paz, dias a mais que não deixaremos para trás

Por Márcia Martins

Sabem aqueles dias que começam a sua história completamente errada? Depois de uma noite intercalada de pesadelos, povoada de monstros bobos da imaginação, em que o sono finalmente encontrou um lugar macio no travesseiro revirado lá pelas seis horas da manhã e o despertador tocaria desesperadamente duas horas após. E que se inicia com o pé batendo forte na quina da cama que está, há mais de 14 anos, colocada no mesmo lugar, a ponto de enxergar estrelas. Pois, a segunda-feira não teve jeito e pelas situações que inauguraram o dia, tudo indicava que o pior ou o mais desastroso ainda estaria por acontecer.

Assim, não estranhei ao ser informada, no decorrer do dia, que umas contas que fizera para calcular os gastos com a mudança de apartamento estavam equivocadas e que eu teria que recorrer à bondade de pessoas conhecidas ou, talvez, assaltar um banco. E com a preocupação, nada que uma enxaqueca oportunista não se aproveite e faça eu me fechar no quarto escuro entupida de medicamentos, sem desejar ouvir nem mesmo o ruído da minha respiração. Quando a dor de cabeça deu uma folga e foi possível abrir os e-mails para ver o que era mais urgente, uma amiga avisa que precisaria cancelar a revisão do trabalho que havia encomendada porque precisava reduzir as finanças.

Mais tarde, ao esquentar água para tomar um chá a fim de acalmar o frio e sossegar um pouco a alma, com a cabeça desmiolada em função das preocupações da mudança, nem notei que deixara a boca do fogão acesa e fui até a sala achar alguma xicara ainda não encaixotada nos entulhos que invadem as peças do apartamento. Por sorte, retornei logo para a cozinha e ao abaixar a tampa do fogão que ficara levantada, notei que a mesma estava muito quente. Com pressa, desliguei a chama antes que um acidente maior ganhasse outras proporções. Quem sabe um banho de tardezinha para tirar este encosto que amanheceu comigo? Nem isto foi possível no momento planejado. A pilha do aquecedor de gás estava gasta e precisei ir ao armazém mais próximo para comprar uma nova.

De tardezinha, depois dos imprevistos que me tiraram o bom humor e a vontade de gargalhar, tive que sair com pressa para ir a uma das tantas reuniões políticas, sindicais ou do movimento feminista que ocupam páginas da minha agenda. Ainda com uma leve dor de cabeça (nada que pudesse ser comparada à enxaqueca anterior), fiquei mais do que o normal na parada de ônibus aguardando a passagem do ônibus. Foi aí que me bateu um remorso porque lembrei que no meio das coisas que saíram erradas, não havia alimentado o Quincas Fernando Martins, o cusco vira-latas, o cão da peste. Só quando girei a chave na porta e não ouvi seus latidos é que me dei conta que ele estava na casa da minha filha Gabriela nos seus dias de guarda compartilhada.

Para esquecer dos desencontros, dores, desacertos e preocupações da segunda-feira que começou toda errada, resolvi dar uma folga para a sessão desapego, para o ato de encaixotar mais algum item do guarda-roupa ou do armário da cozinha, para o sorteio das contas a serem pagas e, contrariando toda a minha rotina, dormir bem mais cedo do que o meu normal (nunca antes das duas da madrugada). Tomei uns comprimidos para relaxar (tudo com receita médica), apaguei todas as luzes da casa e não pensei em mais nada. Só rezei muito para a chegada urgente de dias melhores, dias de paz, dias que não deixarei para trás.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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