Feira do Livro: prepare-se, eu vou lhe usar

A histórica e tradicional Praça da Alfândega, que nasceu no final do século XVIII, no centro de Porto Alegre, deverá ser, nos próximos dias, meu local preferido de lazer de ponto obrigatório, meu caminho de passagem diária, meu exercício inconsequente e fugaz de vasculhar balaios e balaios de livros e meu olhar cotidiano pelas barracas das mais diversas editoras. Encravada no hoje chamado Centro Histórico, a praça e seus encantos, recantos, estátuas, bancos, árvores, personagens e mistérios recebe, desta quarta-feira, 1º, até 19 deste mês, o universo dos livros, dos autores novos e consagrados, dos autógrafos, das obras de ficção, de poesia, das biografias, da estórias infantis e tudo sobre literatura. No meio das ruas dos Andradas, Caldas Júnior, Siqueira Campos e Sete de Setembro, mais de 90 editoras nacionais e internacionais irão abrir as suas páginas na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Nestes dias e noites em que o foco da Capital gaúcha volta-se para o entorno da Alfândega, desfilarei minha curiosidade a observar os lançamentos expostos pelas principais editoras que hoje se espremem no espaço reduzido da praça. No entardecer de Porto Alegre, dedicarei meu tempo livre para procurar nas caixas de livros usados, popularmente conhecidas como balaios ou sebos, os títulos interessantes a preços acessíveis. Sempre é possível, depois de uma longa e cansativa busca, encontrar alguma obra de Fernando Pessoa, de Caio Fernando Abreu, do Carlos Drummond de Andrade ou pequenos livros de filosofia ou sociologia a valores na faixa de R$ 10 a R$ 15. E nestes balaios e sebos também se consegue boas obras para os pequenos e pequenas por preços modestos.

O principal exercício que precisarei realizar nestes 19 dias de feira não é o físico, decorrente da caminhada entre uma barraca e outra, o bater pé entre uma editora e outra para descobrir aquela com a melhor oferta. O que me exigirá maior preparo é o exercício mental para evitar comprar tanto, uma vez que, só para variar, estou em época de orçamento apertado, para não colocar na sacola títulos desnecessários, já que fatalmente começo o mês fazendo sorteio das contas a pagar, para não sucumbir às tentações e resistir à abundância de livros de biografias e poesias, os meus prediletos, uma vez que o cartão do banco entrou no negativo antes mesmo de entrar qualquer resquício de dinheiro na conta.

Como faço anualmente, quero olhar as novidades da Libretos, da Arquipélago, da Cervo, da Artes e Ofícios, entre tantas onde sempre encontro lançamentos e preciosidades. Assim como faço desde a edição passada, conhecer as obras lançadas pela Diadorim Editora, dos queridos jornalistas Denise Nunes e Flávio Ilha. E prestigiar alguns dos lançamentos da Associação Cultural Poemas à Flor da Pele, da minha amiga Soninha Porto e hoje comandada pela Claudete Silveira. Prometo para não comprometer as minhas combalidas finanças, esquecer casualmente o cartão de crédito em casa, não levar talão de cheques e retirar uma quantia insignificante do banco para os meus passeios habituais na Feira do Livro.

Que saudades dos inícios dos anos 80, quando recém havia me mudado para o bairro Bom Fim e, sem medo de assaltos, dirigia-me a pé até a Praça da Alfândega, e de lá voltava com as sacolas abarrotadas de livros. Normalmente, os meus olhos curiosos escolhiam as obras de poesias, ensaios e teorias feministas, pequenos livros de sociologia e as biografias. Como ainda estudava e não tinha uma renda fixa para as compras, eu usava apenas o dinheiro da minha mesada ou uns vinténs obtidos com a datilografia de trabalhos universitários. Nos meus retornos, era comum o espanto da minha mamis poderosa Mirthô que sempre indagava: "como tu vai arrumar tempo para ler tudo isso, Márcia Fernanda"? Quando queria mostrar uma firmeza ou estava brava, mamãe dava ênfase no segundo nome. E, assim como nos dias atuais, quem gosta sempre descobre um tempo para colocar a leitura em dia.

Portanto, 63ª Feira do Livro de Porto Alegre: prepara-se, eu vou lhe usar muito nos próximos 19 dias, seja para comprar, barganhar, conhecer novas obras e autores, ficar com vontade de adquirir mais livros e rever amigos.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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