Happy Hour

"O Oyster Bar é o últmo refúgio para

os sobreviventes da Old New York."

(Vanity Fair)

Era um fim de dia de outubro e ele estava faminto, depois do longo dia recheado de reuniões em três idiomas. A Grand Central Station fervilhava como um formigueiro em véspera de temporal. Entrou no Oyster Bar, que começava a se agitar, mas banquetas vagas no balcão. Pediu um Dry Martini e consultou o imenso e intrincado cardápio. A apetitosa lista de sanduíches ficava no final, depois da inacreditável lista de ostras de diferentes mares e oceanos. Mas não achou o que buscava.

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Os sanduiches e hambúrgueres do Oyster Bar são lendários desde os tempos da Lei Seca. Com participações mais ou menos notáveis em filmes de Hollywood e na TV. Estavam presentes na mesa de Cary Grant e Irene Dunne e, mais recentemente, como coadjuvantes de Jon Hamm e Roger Sterling na série Mad Men. Mas, muito além dos hambúrgueres e Dry Martinis, a fama do mais icônico bar de New York nasceu do incrível cardápio de fresquíssimas ostras - nada menos do que 25 a 30 variedades a cada dia...

Porém, naquele fim de tarde do outono, ele não estava in the mood para ostras vivas nem para hambúrgueres com dois palmos de altura. Buscava algo que dificilmente agradaria o energético Don Draper - apenas o raro, simples e refinado Black Caviar Sandwich, recomendado com fervor por um colega, dedicado desbravador dos velhos bares da cidade. Com uma dica de quem conhece os segredos de Manhattan:

"- Procure por Sandy Ingber, o headwaiter de cabelos

brancos, que sabe de tudo do Oyster."

Não deu outra. Nem precisou repetir o pedido. O grisalho Sandy Ingber fez sim com a cabeça, renovou o Dry Martini (sem que ele precisasse pedir) e sumiu pela porta de vai-e-vem da cozinha. Ele sentiu que estava em boas mãos. A noite chegou e o lugar começou a ficar movimentado. Uma jovem senhora, com terninho executivo de Madison Avenue e um garoto de 11 ou 12 anos sentaram ao seu lado no balcão. Ela pede um hambúrguer para o filho e para si, o Grilled Salmon Sandwich. Que, por alguma obscura razão, chegam antes de seu Caviar Sandwich. Mas ele sabia que paciência é sempre recompensada.

A porta de mogno com barras de bronze polido abriu-se em duas e o que colocaram à sua frente era um verdadeiro poema, repousando em um delicado prato de porcelana branca. O Black Caviar Sandwich vem com duas fatias tostadas de pão sem casca, um ovo cozido ao lado e folhas de repolho cobertas por espesso crème fraîche. Sobre as fatias de pão branco, uma generosa porção de brilhante caviar iraniano. As fatias torradas estavam crocantes, o caviar tinha sabor de maresia, picante e escorregadio na boca. O crème fraîche convidava a embeber os cantos das fatias tostadas - um toque refrescante, em contraste com o ardido das ovas negras.

Ao lado, a executiva da Madison Avenue interrompe as mordidas em seu Salmon Sandwich e arrisca um olhar apetitoso ao prato do vizinho. Devia ter sede, pois pedira um duplo Dry Martini. Ele se dedicou a observar o salão, que agora tinha todas as mesas sob as arcadas ocupadas por gente sedenta. E o constante vai-vem dos garçons replicava a agitação de um trem prestes a partir.

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O Grand Central Oyster Bar abriu suas portas exatamente às 12h01 do dia 2 de fevereiro de 1913, na então a maior estação de trens do mundo e um monumento arquitetônico do novo século. A partir de então, as multidões de newyorkers ocuparam alegremente seus 440 lugares, dispostos a consumir os hectolitros de gin, bourbon e champanhe estocados nas adegas do subsolo.

Naquela época - e por décadas anteriores - bares de ostras, bancas de sanduíches e cervejarias alemãs eram uma instituição no Midtown. A Grand Central Station chega no auge das viagens de trens de longa distância, facilitando a vida dos passageiros que partiam e chegavam à cidade. O arquiteto Raphael Gustavino, contratado para projetar o bar, desenhou um belíssimo salão de tetos arqueados e cobertos de azulejos de terracota. Para cuidar da cozinha chegou Viktor Yesensky, que dirigia o bar de ostras do lendário Knickerbocker Hotel. Ele reinou por mais de 30 anos, transformando o Grand Central Oyster Bar em um dos balcões mais concorridos da Costa Leste, onde eram servidos variedades de amêijoas, ostras frescas, assadas, fritas ou ensopadas. Durante décadas, executivos de Madison Avenue, banqueiros de Wall Street e celebridades mundiais ajudaram a polir o centenário balcão com seus cotovelos. 

Nos anos 1950, as viagens em trens de longa distância perderam prestígio, com o advento dos voos transcontinentais e dos modernos aeroportos. Surgiram então projetos para demolir o terminal e ali construir vários e gigantescos arranha-céus. Em 1975, quando os gestores da estação estavam a ponto de ceder à tentação, intelectuais e artistas, liderados pela primeira-dama Jackie Kennedy e com o apoio do New York Times, conseguiram que a Grand Central fosse declarada como marco histórico nacional. Eles salvaram um monumento dos velhos tempos, os Dry Martinis e os sanduiches de caviar.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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