Inimigo #1

Por Flávio Dutra

Os cães são o inimigo número um dos amantes. A afirmativa não é gratuita. Os holandeses, sempre muito avançados nas questões dos costumes, já sacaram que os simpáticos dogs e a prática sexual são incompatíveis, tanto assim que liberaram uma praça de Amsterdã para encontros amorosos completos, ao mesmo tempo em que proibiram a circulação de cães pelo local.

Será que não é má vontade com os aparentemente inocentes animaizinhos? Os holandeses podem ter lá suas razões, que não devem ser muito diferentes das que colhi em vários depoimentos de vítimas de nefasta interferência canina nas suas relações. Todos reclamam que, nos tempos que correm, número expressivo das mulheres disponíveis, solteiras ou descasadas, já estão emocionalmente envolvidas. Cães e gatos passaram a ocupar lugar de destaque em seus corações e mentes, o que explica a disseminação e a prosperidade do comércio dedicado a produtos para pets.

Algumas moças e senhoras, inclusive, tem o hábito pouco saudável de permitir que seus animais domésticos durmam na mesma cama, impregnando-a de pelos e odores. O mesmo leito que depois será compartilhado para práticas mais saudáveis. Um conhecido conta que, submetido a uma situação assim, dava um jeito de só transar na banheira. Outro, preferia o sofá, até se dar conta de que o móvel também era hospedaria de cães e gatos. Mas aí já era tarde e depois de um constrangedor acesso de espirros na hora H, decidiu romper com a namorada. Desde então, dedicou-se a conquistar mulheres sem animais de estimação.

Mesmo com o excesso de pelos, os gatos não devem ser motivo de preocupação porque eles não se fixam tanto nas pessoas e, sim, no habitat, portanto, não veem o amante de sua dona como um rival, a disputar espaço e atenções. Com os cães é diferente. Cães são obsessivos, ciumentos.

Pós-graduado em psicologia de mesa de bar, também observo esse crescente apego das mulheres aos animais domésticos, adotados como se fossem filhos.  Constato ainda a preferência feminina por batizar os animais com nomes estrangeiros, talvez para conferir a eles um status que seus pedigrees não autorizam. Nomes retirados, com frequência, de séries televisivas ou do Netflix, tipo Greys, Mirror, Gilmore, Merli, Seinfeld e barbaridades do gênero.

E tem cada história! Amigo do colunista revela que a maior humilhação que sofreu foi quando uma parceira trocou um promissor happy hour pela compra de rações para seus cães. Até hoje, ele não se recuperou da desfeita. Outro amigo conta uma situação que mostra até que ponto a espécie pode ser ardilosa. Nos primeiros encontros na morada da amante, o cãozinho de estimação não o hostilizava, ao contrário, fazia festa e se refestelava com ele, doce e meigamente. Mas isso ocasionava problemas quando voltava para casa e o cão da família ficava eletrizado, não largava do pé dele, e ele não sabia explicar o porquê. Só descobriu mais tarde: a amante, na verdade, tinha uma cadela e ela - a cadela - estava no cio, fazendo nosso amigo de portador da química que atiçava o cão dele.

Outro companheiro de confrarias se queixa de um cachorrinho voyer, que conheceu na casa da filial. O danado do bicho ficava à espreita na hora do rola-rola do casal e demonstrava todo o seu entusiasmo com o que assistia. O que mais irritava o sujeito era que, assim que colocava os pés na casa da outra, o cãozinho já subia para o quarto, rabo abanando freneticamente, para presenciar o espetáculo. Menos mal que era um animalzinho de pequeno porte, já que o nosso amigo temia que um dia o excitado cão saltasse sobre eles. Imagina o estrago, se o bicho fosse grande.

Ao expor essas situações só espero não ser execrado pelos adoradores de pets, nem sofrer retaliações da Felícia e do Godo, os discretos yorkshire aqui de casa.

Autor
Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Ufrgs, com especialização em Jornalismo Empresarial e em Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas politicas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado, da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros 'Crônicas da Mesa ao Lado' e 'A Maldição de Eros e outras histórias', integrou a coletânea 'DezMiolados' e foi coautor com Indaiá Dillenburg de 'Dueto a dois é sempre melhor'.

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