La cruzada

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Em um vale remoto da Biscaia, não muito distante de Guernica, uma solitária capela se destaca no verde dos olivais. No pequeno cemitério, algumas cruzes de pedra são o que resta da memória de um passado sangrento. Ali foram fuzilados 16 religiosos bascos, no dia 20 de outubro de 1936. Estava começando a Guerra Civil na Espanha.

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Enquanto isso, o poeta Federico Garcia Lorca está colhendo os louros de seu imenso talento. Sua peça, Bodas de Sangre faz sucesso em Madrid e Buenos Aires. Nos Estados Unidos é lançada a antologia Un Poeta en Nueva York. E a grande atriz Margarita Xirgu o convida para declamar poemas na Universidade da Cidade do México. No entanto, ocupado com a estreia de Doña Rosita la Soltera em Barcelona e com o agravamento da situação política, o poeta cancela a viagem e permanece em Granada.

A peça faz um enorme sucesso e a crítica a elege como obra maior do teatro espanhol. Então, tem início a Guerra Civil Espanhola, causando a morte de mais de um milhão de pessoas.

Com La Cruzada, como os nacionalistas então apelidaram o conflito, se inicia uma feroz perseguição política a ativistas e intelectuais de todas as cores e matizes. Era uma imensa babel de crenças e partidos, com anarquistas, marxistas, católicos, monarquistas, carlistas, falangistas, nacionalistas, liberais e republicanos lutando entre si.

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Federico Garcia Lorca é preso, acusado de ser "rojo y maricón". Levado pela Guarda Civil, é executado nos arredores de Granada. Segundo as lendas, fuzilado pelas costas, macabra alusão à sua homossexualidade. Uma carta de três páginas, com data de um mês antes de sua morte, foi o último texto escrito pelo poeta e dramaturgo. Conservada em segredo por 70 anos pelo jornalista Juan Ramírez de Lucas, revela uma história de amor em tempos de guerra. E nos diz como Lorca reagia aos anos de sombras:

"Conta comigo sempre. Sou teu melhor amigo e digo que

é preciso que voltemos a sorrir.

Na Espanha se passam coisas tremendas, para não dizer terríveis,

e eu as vou tourear com graça."

Ele tenta animar Juan Lucas, mas - certamente com receio da censura - não fala da guerra:

"Estamos todos preocupados, mas como me conheço bem, sei que vencerei as dificuldades porque me sobra energia, graça e alegria - como dizemos na Andaluzia - para parar um trem."

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Juan Ramírez de Lucas morre aos 93 anos, sem ter revelado a relação com Lorca. Entre os documentos que entregou a uma das irmãs antes de falecer, um texto inédito do poeta assinado como "Rubio de Albacete", gíria dos ciganos para mencionar um jovem rebelde e aventureiro. Uma clara referência a Romancero Gitano, obra de 1928, composta por 18 romances, todos marcados por morte, violência e amores trágicos entre os ciganos.

Quase um século depois, na Espanha moderna, como os monges do País Basco, os ciganos de Federico García Lorca são mártires esquecidos dos anos de sangue. Em sua poesia, representavam profundos sentimentos do ser humano, submetidos a um destino sempre trágico. Homens são maduros, sensíveis, calmos e fortes. As mulheres, símbolos de sensualidade, são recolhidas, tristes, mas inabaláveis na adversidade. Para Lorca, a mais pura forma da Espanha andaluza.

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Como nos conta na mítica saga de Antonio Torres Heredia, que seguia seu caminho "para ver los toros", interrompida pela Guardia Civil que o leva preso para ser fuzilado. Uma parábola da morte de Lorca, que o poeta Antonio Machado reviveu em "El Crimen fue en Granada", versos que não nos deixam esquecer La Cruzada.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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