Lugar de mulher é onde ela quiser

No domingo, 11, quando o juiz apitou o término de mais um clássico Grenal no Beira-Rio, em que o Grêmio ganhou com dois gols do Luan contra um gol do Internacional, eu estava decidida. Na segunda-feira, no decorrer do dia, iria acionar as minhas companheiras mosqueteiras (Lessilda, Carlota e Liane) e convidá-las para ver o primeiro Grenal válido pelas quartas de final do Campeonato Gaúcho, que ocorrerá no domingo, 18, na Arena do Grêmio. O plano de torcedora gremista estava traçado. Faltava captar a companhia alegre e fiel das gurias. Raspar o cofre, arrecadar dinheiro escondido nas gavetas e economizar na semana para comprar o ingresso e rumar enrolada no manto sagrado (a bandeira do Tricolor) com as amigas para a Arena, assistir ao clássico e torcer pelo time.

Mas, no início da segunda-feira, o plano foi abruptamente revogado. Nem cheguei a cogitar a ida ao clássico com as mosqueteiras, que somente saberão da minha ideia se lerem a coluna. Ao tomar conhecimento de vários atos machistas praticados no Grenal no Beira-Rio, abortei, imediatamente, a minha vontade de ver o Grêmio jogar presencialmente. E por um motivo bem simples. Não tenho mais paciência para ver calada atitudes machistas. Não tenho mais calma para ouvir desaforos e xingamentos para qualquer mulher, mesmo que tais ofensas não sejam dirigidas à minha pessoa. Não aceito, nunca aceitei e nem aceitarei o desrespeito com o ser humano, seja de qualquer sexo.

Sou totalmente contra selvageria e violência. Não defendo a perda da razão. No entanto, não sei como reagiria se visse alguma das cenas de preconceito, machismo e discriminação que foram mostradas no último Grenal. Porque tudo tem um limite, certo? Não consigo crer que, em 2018, uma mulher não possa ir tranquilamente a um estádio de futebol sem correr o risco de ser importunada, xingada e desrespeitada. Pelo simples fato de ser mulher. Não quero acreditar que, em 2018, uma mulher jornalista não possa exercer a sua função de repórter e fazer a cobertura de um jogo sem ser agredida por um torcedor fanático e sem noção. Pelo simples fato de ser mulher.

Todos já devem saber que um homem agrediu uma repórter da rádio Gaúcha no Grenal no último domingo e usou e abusou de palavrões contra ela. Todos já devem saber que uma mulher, enquanto aguardava o início do jogo, presenciou uma cena triste e desrespeitosa na arquibancada colorada, em que torcedores do Internacional faziam gestos obscenos para gremistas que ocupavam um camarote ao lado. Todos já devem saber que outra mulher jornalista, em depoimento nas suas redes sociais, denunciou sofrer assédio e ouvir desaforos no seu trajeto até o estádio no mesmo jogo. E muitos outros casos de discriminação devem ter ocorrido, mas não vieram a público porque não foram filmados ou denunciados.

Não se trata aqui, faço questão de enfatizar, de grenalizar a violência contra a mulher, uma vez que os casos ocorreram no Beira-Rio, estádio do Internacional, e todos sabem que eu sou uma gremista. Não me interessa se o torcedor era do Inter. Poderia ser do Grêmio. Ou de qualquer outro time. Rivalidades à parte, isto não pode mais ocorrer. E na data de 8 de março, Dia Internacional da Mulher, tinha gente querendo comemorar. O quê, exatamente?

Ninguém pode ser desrespeitada ao estar dentro de um estádio vendo um jogo de futebol e torcendo pelo time que quiser. Ninguém tem nada com isso. Ninguém deve ter questionada a sua capacidade profissional e a sua presença naquele lugar. Ninguém tem nada com isso se a jornalista optou em ser repórter de futebol. Ninguém merece ser assediada e ouvir desaforos no caminho para o estádio a fim de viver o seu lazer, torcer pelo seu time, ser feliz. Ninguém tem nada, absolutamente nada com isso. E na data de 8 de março, Dia Internacional da Mulher, tinha gente querendo comemorar. O quê, exatamente?

Só espero que os culpados pelos atos estúpidos sejam punidos. Pelo menos nos casos em que existem as provas. Só espero que o respeito não seja mais que uma utopia. Só espero que a igualdade entre os sexos seja mais do que uma teoria. Só espero que entendam, de uma vez por todas, que lugar de mulher é onde ela quiser.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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