Maigret à mesa

Ele parecia um daqueles escritores ingleses exilados em Paris, quando os Anos Dourados já haviam cessado de existir. Mas estávamos em plenos anos 70 e Pierre Hebey não parecia nem um pouco deslocado no tempo. Ocupava sempre a mesma mesa de canto no La Mère Catherine em Montmartre. Fora um dos tradutores de Georges Simenon na Gallimard e se tornara um grande especialista em Jules Maigret. Sabia tudo do mais famoso personagem de Simenon, mas seu interesse não eram os casos criminais mobilizavam o Palais de Justice. Seu foco eram os apetites e a gula do Comissário.

***

Aquele homem na mesa de canto no La Mère Catherine sabia "de cór" (ou seja, de coração) os bistrots e restaurantes que Maigret frequentara nas andanças por Paris. Ele recitava pratos degustados e bebidas sorvidas com tal gosto, que ouvi-lo era uma viagem à tradicional cuisine française. Sua narrativa começava com M. almoçando Tripes à la mode de Caen e Crêpes Suzette no antigo mercado Les Halles. Aconteceu na novela Mon ami Maigret, uma das aventuras menos conhecidas, mas, que, para os aficionados, uma das mais irreverentes e divertidas. A seguir, sem fazer pausa, Monsieur Hebey relembra das inúmeras refeições solitárias do Comissário, enquanto ruminava seus intrincados casos criminais.

Como em Maigret chez le Ministre, onde ele saboreia um simples Filet de Sole Dieppoise em um pequeno e anônimo restaurante na Place des Victoires. Mas em outras vezes, o personagem compartilha apetites com o fiel Janvier, como em Maigret et les Vieillards, quando entram em uma brasserie da rue de Bourgogne para comer Asperges de la Raie au Beurre Noir.

Ou ainda, como em Maigret et l'indicateur, quando a dupla almoça no La Sardine, na rue Fontaine. A escolha são Coquilles Saint-Jacques, seguidos de um Côte de B?uf Braisée, regados por um Beaujolais du Pays. O mesmo vinho reaparece em Mademoiselle Berthe et son amant, em uma refeição em restaurante frequentado por motoristas de taxis da rue Caulaincourt. O prato pedido, Fricandeau à L'oseille, é acompanhado de mais Beaujolais.

No entanto, quando Simenon faz Jules Maigret contracenar com figurões, o cenário e o cardápio mudam da água para o vinho. Em uma passagem de Maigret et son mort, ele divide a mesa com o Comissário Colombani, da Sûreté e com um diretor do Folies-Bergères. O local escolhido é o Chope Montmartre, na rue du Faubourg-Montmartre, onde eles pedem Truites au Bleu e Perdreaux au Chou, devidamente acompanhados por um bom Châteauneuf-du-Pape.

Como qualquer outro mortal, o Comissário, quando longe do olhar de Madame Maigret, se permite abusar das sobremesas. À certa altura de Maigret hésite, faz uma pausa nas andanças pela rue de Miromesnil e entra no Au Petit Chaudron, onde pede um generoso Baba au rhum, coberto com uma montanha de Crème Chantilly.

Gratificado e satisfeito consigo mesmo, ele veste o sobretudo, acende o cachimbo e volta para o Quai. Naquela mesma tarde, deslinda o caso das misteriosas cartas anônimas.

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

Comentários