Mais de um mês da doença do cão budista Dalai

Mais de uma vez já foi tema das colunas que escrevo aqui no portal a minha paixão declarada e assumida pelos cães. Desde criança sempre fui doida pelos cachorros. Tanto que já tive, juro por São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais, mais de nove caninos nesta minha longa e feliz existência. Na casa da rua Doutor Mário Totta, da rua Fernando Machado e, por último, na atual humilde residência, onde já vivi o cúmulo de ter mais cachorros do que habitantes. Nunca fui, no entanto, muito criativa com a escolha dos nomes dos bichos. Banzé, por exemplo, que eu me lembre, foi o nome que batizou pelo menos três. Com o toque aristocrático das dinastias passadas, diferenciava-os com Banzé I, Banzé II e Banzé III.

Todos os cães da minha história tinham nome e sobrenome. Um dos mais sapecas foi o Kiko Luis Alberto Fernando Peçanha Martins, que acompanhou a família na mudança da rua Mário Totta para o Bom Fim lá pelas cansadas de 1981/82. Infelizmente, necessitei doá-lo porque o cusco não se adaptou na nova morada. Foi, no entanto, no apartamento onde resido atualmente com a filha que exercitei, com a ajuda da Gabriela, a opção dos nomes caninos mais sensacionais. No espaço encravado numa esquina qualquer da avenida Independência batizamos o shih tzu que chegou em janeiro de 2008 de Dalai. Depois o cocker spaniel foi denominado de Gandhi e o sem raça definida de Ravi. Pela intolerância dos vizinhos, Gandhi e Ravi foram morar com o meu pai na praia.

Dalai é um dos nomes mais acertados para o cão que completa em dezembro seus 10 anos. Definitivamente, ele é um cão budista e um mestre na arte da paciência, da paz e das ações calmas e descansadas. Meu neto canino shih tzu, que tem todas as qualidades e os defeitos de um sagitariano, é especial, único, carinhoso, amoroso e como todo o cachorro desta raça jamais deixa explícito o seu amor mais profundo, se isso exigir demonstrar preferência. Jamais vi o Dalai encurralado para escolher entre as suas duas donas. Se ambas estão acomodadas no sofá da sala em casa, ele não tem a mínima dúvida: esparrama suas patas peludas e seu fuço achatado entre as duas para não ferir a avó Márcia e nem a mãe Gabriela.

Pois meu neto canino está desde 9 de setembro com uma hérnia de disco a lhe limitar os movimentos e as pequenas travessuras que ele, do alto de sua determinação budista, fazia de vez em quando. Como correr de um lado ao outro na sala para mostrar satisfação com a chegada das suas fiéis escudeiras. Pular desesperadamente nas pernas de qualquer visita. Latir toda vez que alguém caminhava no corredor. Esperar ansioso o lançamento de seu osso para buscá-lo e devolver em seguida. Ou pedir com seu olhar e jeito assertivo a ração sempre que, por descuido de minutos, esquecemos de abastecer a sua vasilha com a refeição.

Para superar a doença, ficou ainda mais budista. Completamente dopado de remédios para dor, passa seus dias e noites dormindo sob efeito dos medicamentos. Totalmente lesionado, não sobe e desce do sofá para pedir cafuné para nós duas. Proibido de frequentar a pet para seu banho perfumado, é submetido duas vezes por dia a uma limpeza profunda. E sem demonstrar a mínima disposição, pouco caminha, pouco late, pouco rosna, pouco se mexe. É muito triste ver o Dalai assim tão dodói. Sei que deveria usar o espaço para falar de casos da comunicação, mas os apaixonados pelos peludos entenderão a minha opção pelo tema canino.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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