Memórias do Azul

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Sou um guardador de rebanhos

O rebanho são os meus pensamentos."

(Alberto Caeiro)

O azul estava quase sempre presente em minhas mais tenras lembranças de infância. Às vezes, simplesmente o azul cobalto do céu sobre a lagoa e os campos da fazenda das férias de verão. Ou o azulado dos jacarandás de nossa rua nos novembros de Porto Alegre. Ou até aquele azul-verde da grande tibouchina debruçada sobre os muros de pedra do casarão da Ramiro Barcelos. Onde morava uma inalcançável moça loura de olhos também azuis.

***

Foi por aqueles dias que descobri, meio por acaso, um poeta de Portugal, cujos versos soariam em meus ouvidos por muito, muito tempo. Senti que não estava sòzinho em minha paixão pelos azuis do caminho. Um poeta chamado Alberto Caeiro, que confirmava que a felicidade mora no Azul:

"Ó céu azul - o mesmo da minha infância -

Eterna verdade vazia e perfeita!."

O poeta nasceu em Lisboa, em 1889, e em Lisboa morreu aos 26 anos. Sabemos que suas datas de morte e falecimento de Alberto Caeiro da Silva foram inventadas pelo seu criador, o grande Fernando Pessoa.

O mesmo criador que determinaria que Caeiro vivesse a vida inteira em uma remota quinta no Ribatejo. De onde escreveu o poema O Guardador de Rebanhos, um dos momentos altos da poesia portuguesa do século XX. Os críticos afirmam que Alberto Caeiro não possui biografia própria. Tudo o que se conhece dele está nos versos que compôs. Aliás, da vida deste heterônimo não há muito o que narrar - sua vida e seus poemas são quase a mesma coisa. A linguagem de Alberto Caeiro nasce da sua intimidade com a natureza.

Ele compôs uma poética da contemplação do sol, dos prados e das flores coloridas. É a linguagem da natureza, dos sentidos, das sensações puras e simples. Em sua quinta no Ribatejo, ele procurou o sentido das coisas básicas da vida, com a intensidade que um poeta urbano não saberia expressar. Mesmo assim, enquanto procura demonstrar que não intelectualiza a poesia, é justamente ele quem que mais se intelectualiza entre as personalidades pessoanas. Talvez por isso mesmo, foi visto como um poeta infeliz, por ter fugido do progresso, renunciando ao mundo.

Sendo o mais intelectualizado entre os heterônimos de Fernando Pessoa, ele aparenta ser o menos preocupado com o artesanato dos versos. Como afirmam os estudiosos da poesia de Portugal, Alberto Caeiro, sem as preocupações formais, foi um verdadeiro filósofo entre os colegas pessoanos. Mesmo não pretendendo muito e trabalhando o simples da linguagem, construiu um raro monumento poético:

"Olá, guardador de rebanhos,

Aí à beira da estrada,

Que te diz o vento que passa?

Que é vento, e que passa,

E que já passou antes,

E que passará depois,

E a ti o que te diz?

Muita cousa mais do que isso.

Fala-me de muitas outras cousas.

De memórias e de saudades

E de cousas que nunca foram.

Nunca ouviste passar o vento.

O vento só fala do vento.

O que lhe ouviste foi mentira,

E a mentira está em ti."

***

Cor da verdade onde o céu se reflete!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta".

"O meu olhar azul como o céu

É calmo como a água ao sol.

É assim, azul e calmo,

Porque não interroga nem se espanta..."

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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