Montanha mágica

"Pintar a natureza na França é como

declamar um verso de Racine".

Paul Cézanne.

 

Na Provença, não longe da charmosa Aix-en-Provence, o Sainte Victoire ergue seus mais de mil metros sobre uma planície coberta por vinhedos centenários, vilarejos de telhados avermelhados, bosques de oliveiras e córregos de águas límpidas. A luz mediterrânea lava a grande montanha e a veste de cores surpreendentes à medida em que o dia avança. Um dos maiores mestres do impressionismo, Paul Cézanne, tinha afeição idólatra com esta montanha e a pintou inúmeras vezes, fazendo dela um ícone da pintura contemporânea.

 

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Antes de Cézanne, Sainte Victoire era conhecida apenas como referência histórica. Ali ocorreu uma importante batalha militar em 102 AC, quando legiões romanas derrotaram as tribos germânicas de cimbros e teutões. Celebrando sua vitória, os conquistadores deram à montanha o nome de Monte Victoria, que mais tarde ganharia o acréscimo de Sainte, por obra de cristãos gauleses. Paul Cézanne nasceu e cresceu à sombra do monte. Ele e os amigos Émile Zola e Jean-Baptistin Baille brincavam nos campos próximos e escalavam as escarpas da base do rochedo.

Mais tarde, em suas temporadas em Paris, Cézanne se tornou próximo de alguns dos maiores pintores da época, Pierre-Auguste Renoir, Camille Pissarro, Edouard Mane e Claude Monet. Em certo momento, quando sua pintura rompeu com os cânones do classicismo, ele recebe mal os ataques dos críticos. Desgostoso, deixa Paris, cede ao apelo do interior e volta para a casa da família em Aix-en-Provence. Como em um regresso às descobertas de infância, se dedica a pintar Sainte Victoire, modificando a paleta de cores, conforme a luz do sul a ilumina a cada hora do dia.

Durante o ano de 1870 e adiante, Paul Cézanne retrata a montanha nada menos do que 87 vezes, mudando e fragmentando seu perfil anguloso. Aluga uma cabana na pedreira de Bibemus, de onde descobre novos ângulos de Sainte Victoire. Pinta suas derradeiras telas na colina de Lauves, em um lugar chamado Chemim de la Margueritte. E foi ali que, aos 67 anos, é surpreendido por uma forte tempestade, enquanto retratava mais uma vez sua montanha. Encharcado pela chuva, ele diz ao amigo, o jovem Émile Bernard:

 

"Eu prometi a mim mesmo que morreria pintando".

 

Paul Cézanne morre uma semana depois, vitimado por uma devastadora pneumonia. Da janela de seu quarto, ele ainda saboreia uma última visão da misteriosa Sainte Victoire. Foi um pintor que se rebelou contra as leis da perspectiva - ele as modificava, dizendo que o artista deve olhar a natureza em suas formas fundamentais - a esfera, o cone e o cilindro. E foi além do prazer puramente estético do abundante colorido do Impressionismo. Hoje, roteiros turísticos conduzem visitantes à passeios pela montanha e ao estúdio do pintor em Aix-en-Provence. Quem for adiante e se aventurar pelas trilhas de Cézanne ao redor do monte, pode chegar até a vila de Vauvenargues, onde existe um belo castelo do século XVII. Quem subir ao alto das torres, terá uma visão surpreendente do Sainte Victoire. Um recente proprietário do castelo, Pablo Picasso - grande admirador de Cézanne - gostava de desfrutar aquela visão mágica. Ao saber da morte do grande pintor, teria dito:

 

"- Ele era um Deus"

 

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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