Na parede da memória esta lembrança é o quadro que dói mais

Quase toda a família reunida na Sexta-Feira Santa na casa do mano Nando e da cunhada Flávia em Butiá (faltou a minha filha Gabriela que precisou ficar em Porto Alegre cuidando do cusco filhote Quincas) e uma cena do passado invadiu a minha memória. A figura da mãe Mirthô Peçanha Martins, desde as 8h da manhã na espremida cozinha do apartamento na rua Doutor Barros Cassal, onde viveu desde 1993 até rumar para a cidade na Região Carbonífera, em 2010, moldando em suas mãos frágeis e habilidosas, uma quantidade imensa de bolinhos de bacalhau. Mais tarde, o prato principal da mesa das Sextas-Feiras Santas e uma das suas especialidades seria saboreada por filhos e filhas, genros e noras, netos e netas.

Mamãe morreu em 4 de julho de 2011 e é incrível como cada dia ela está mais presente e viva nas minhas lembranças. Foi só a minha cunhada começar, nesta última Sexta-Feira Santa, a desfiar o bacalhau e colocar a mão na massa enrolando os bolinhos que imediatamente revi a mãe com sua agilidade na cozinha arrumando em bandejas ou em travessas de alumínio os bolinhos e preparando-se para iniciar a fritura. Claro que ela sempre cozinhava um prato que deveria ser o principal, mas tornava-se o secundário diante da excelência dos bolinhos. Para acompanhar, Mirthô fazia um arroz branco soltinho, uma salada de maionese e saladas variadas. E mais de 100 bolinhos de bacalhau enfeitando a mesa como protagonistas.

Ao ver a cunhada pilotando o fogão e organizando as frituras dos bolinhos, enxerguei minha mãe transbordando felicidade ao ouvir o barulho da campainha do apartamento anunciando a chegada de alguém da família. Quando percebi, na última sexta-feira, todos estabelecidos na mesa de madeira retangular da casa do mano em Butiá, avistei a Mirthô feliz alcançando bolinhos para filhos e filhos, genros e nora e netos e netas. E relembrei, como se estivesse no apartamento da rua Doutor Barros Cassal, a mesa de vidro em que todos se acotovelavam para almoçar e espantar-se com o número exagerado de bolinhos que cada membro da família comia. E mamãe com um sorriso enorme de ver sua prole feliz e alimentada.

Enquanto a saúde lhe permitiu (nos últimos anos ela já estava bem debilitada), Mirthô gostava de organizar as datas festivas no apartamento da rua Doutor Barros Cassal, onde morei com minha filha Gabriela durante cinco anos depois que me separei. Natal, Ano Novo, aniversários, Páscoas, salgadinhos e doces para o Carnaval e se não tivesse um motivo marcado no calendário para reunir a pequena família, a mãe inventava uns lanches com bolos, tortas, guloseimas, cafés e chás para agregar nos domingos de tarde, quando se colocava o assunto da semana em dia, trocava-se ideias sobre a educação dos filhos, comentava-se a novela e se pensava nos atos futuros.

Mas tenho certeza que a memória afetiva e olfativa dos rebentos que rodeavam Mirthô fixa-se nos famosos bolinhos de bacalhau. Mais do que os ingredientes dos bolinhos, mamãe abusava do afeto como tempero deste preparo do seu prato. Mais do que a maestria na cozinha, mamãe esnobava amabilidade e abnegação ao dispensar qualquer ajuda na elaboração da iguaria. Mais do que uma receita seguida à risca para o sucesso da comida, mamis misturava alegria, satisfação, certeza do dever cumprido ao abraçar todos os familiares ao redor da sua mesa e perceber que eles saíam não só alimentados, mas renovados com doses cavalares do amor mais puro e sincero que existe no mundo.

Cenas de família. Retratos de bem-querer. Fotografias em preto e branco. Filmes do passado. E na parede da memória esta lembrança é o quadro que dói mais: não ter a minha mãe convivendo comigo não só para distribuir carinhos e afagos com seus mimos e suas comidinhas especiais, mas, principalmente, para oferecer o ombro amigo, confortável e imprescindível quando as encrencas da vida me surpreendem e mostram quão fraca sou. Sei que Mirthô conheceu e teve em vida o meu desmedido amor por ela. Sei que onde estiver Mirthô me acompanha e vê que continuo a amá-la de todas as maneiras que existem para amar. Sei que Mirthô me ensinou o amor mais inexplicável dos humanos: o materno. Mas cada vez que a saudade aperta eu me convenço que é preciso muito amar as pessoas como se não houvesse amanhã.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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