Não me olhe atravessado. Em período de inferno astral

Por favor. Em nome de tudo que é mais sagrado. Pelo sangue de Jesus. Por que Deus é pai, não é padrasto. Pelas fitinhas de todas as cores do Nosso Senhor do Bom Fim que trago amarradas nos pulsos, nos tornozelos e dentro da bolsa. Pela intercessão de todos os espíritos de luz. Em nome de Allan Kardec. Por que o Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você. Pela promessa um dia feita de subir de joelhos os degraus da Igreja da Nossa Senhora das Dores. Nos próximos dias, aconselho até 9 de junho, evite me contrariar, distancie-se dos meus debates acalorados, não me olhe atravessado, não me provoque, não discuta comigo, aceite minhas ponderações e de, preferência, sempre me dê razão.

Desde 10 de maio, estou naquele período conhecido como inferno astral, que ocorre anualmente nos 30 dias anteriores à data do aniversário das pessoas. Segundo o dito popular, é a época em que o futuro aniversariante esbanja sensibilidade e tudo parece conspirar contra o tal vivente. E, por isso, informo aos que convivem comigo e até aos meus leitores para que sejam meigos e fofos nestes dias: minha sensibilidade está no grau máximo. Qualquer dor é sempre maior, qualquer problema apresenta-se sem solução, a cicatriz não quer sarar, apesar dos remédios, e a luz no fim do túnel parece que apagou-se definitivamente.

Como sou geminiana legítima (já anotem aí que sou de 9 de junho para não se esquecerem de me parabenizar porque posso magoar, simples assim, e adoro ser paparicada), informo-lhes: não existe nada pior do que geminiana simples em inferno astral. Mas num esforço astrológico imaginem, só de leve, uma geminiana por todos os poros, ascendentes, descendentes, antepassados, sol, lua e os principais planetas em Gêmeos. É melhor não chegar muito perto. Aconselha-se não contrariar. Mantenha distância. Seja atencioso e carinhoso. Abuse na amabilidade. Não poupe os elogios. Respeite meu tempo de inferno astral.

Neste espaço de tempo que precede a data do aniversário em que tudo de ruim pode e costuma ocorrer, a receita culinária que você faz e é sempre elogiada resolve dar errado, a conta no banco estoura e o saldo não só fica no vermelho como se tinge de todas as cores, o dinheiro extra guardado às custas de muito trabalho nas horas de folga e economias terá que cobrir uma obra emergencial no apartamento e seu médico decide solicitar um novo exame de saúde que seu plano não cobre de jeito nenhum. Seu sono desaparece de forma misteriosa e nem todos os remédios sedativos resolvem para que ele volte. A faxineira sumiu, o bolo abatumou, a enxaqueca lhe acompanha em todos os dias e noites e o filhote recém-adotado decide fazer as necessidades fora do lugar.

E eu penso que não devo acreditar neste infeliz do inferno astral e tal e tal e estas coisas do zodíaco, uma vez que afirmo não acreditar em bruxas, mas que elas existem, ah, juro que existem, umas bem feias, corcundas e com verrugas que até rondam minha vida, eis que convivo, neste momento, com o cenário ruim dos 30 dias que antecedem o meu aniversário. Logo, preciso entender que focinho de porco não é tomada, pedir força e resistência à Nossa Senhora do Chuveiro, desviar de escadas e encruzilhadas. Até 9 de junho, estarei vestida e armada com as armas de São Jorge, e munida de alguns adereços como figa, olho grego, crucifixo, trevo de quatro folhas e ferradura.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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